quinta-feira, 10 de abril de 2014

A história de amor entre um povo loucamente apaixonado e um país que não dá valor ao que tem

Ela estudou, aprendeu tudo o que tinha de aprender e chegou a hora de colocar todos os seus conhecimentos em prática. Dentro dela viviam todos os sonhos do mundo e a vontade de dar tudo o que tinha. Porém, o seu pequeno país vivia em sentido oposto. Não havia vontade de dar nada e procurava somente tirar tudo o que os seus alcançavam. Há muito que Portugal tinha deixado de ser um país. Aquele quadradinho à beira mar plantado não passava de uma terra de recordações para os mais velhos e um cemitério de sonhos para os mais novos. Como a idade não esperava por melhores dias, ela fez as malas, levou o indispensável e partiu com todas as esperanças, receios e saudades. Não havia espaço para tamanha saudade, mas essa palavra é exclusiva de Portugal e França seria o destino.
Uma vez em França foi rápido encontrar trabalho, ajudar quem mais precisava e aproveitar para saborear a cultura daquele país tão diferente. Paris era pequeno demais para tantas emoções, mas grande demais para o tamanho do seu corpo. Ela perdia-se nas ruas, camuflava-se nos metros e a luz da cidade parecia nunca ser suficiente para a iluminar. Lá fora ela tinha dinheiro, emprego, experiências diferentes, mas não os seus. A sua casa, a sua família e as suas primeiras paixões não podiam ser substituídas. Costuma-se dizer que o nosso lar é onde nós estamos, mas ela nunca esteve verdadeiramente ali. No dia da partida, levou todos os sentimentos do mundo, menos o coração. Ela sabia que a família precisava de si e, acima de tudo, não seria ninguém sem a sua família. Posto isto, numa noite chuvosa de inverno, decidiu abrir a janela e subir até ao terraço. A chuva parecia ter acalmado com tamanho acto de loucura. Caía como se não quisesse molhar. Até a chuva estava indecisa.
No terraço ela sentou-se a admirar a paisagem. Era impressionante a quantidade de luzes que ainda iluminavam a cidade. De seguida meteu a mão no queixo e pensou no que estava ali a fazer, se tinha valido a pena todo aquele tempo e, acima de tudo, toda a privação de ser feliz. Se era isto que ela queria? Não. Ela não pedia muito, apenas o andar na rua e sentir as pessoas, conhecer os seus rostos e ter aquele aconchego bom a qualquer hora.
- Paris, podes bem ser a cidade do amor, mas nunca morrerei de amores por ti.
Por fim sorriu, de rosto molhado e alma lavada. Estava decidida a fazer as malas e regressar, estava decidida a voltar para os seus e lutar pelo seu futuro, sem tantas certezas ou oportunidades. Na realidade, ela nunca tinha abandonado Portugal.

Esta é uma de tantas histórias de amor, entre um povo loucamente apaixonado e um país que não dá valor ao que tem.

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