quinta-feira, 17 de abril de 2014

O meu melhor amigo é o meu amor

Estamos sentados no mesmo banco de jardim, lado a lado, como sempre estivemos ao longo dos anos. Eu sou aquele que entrou na escola primária e foi da tua turma. Sou aquele que te ouviu cantarolar as músicas dos desenhos animados, viu-te sem os teus dentes da frente e ainda se lembra do nome das tuas bonecas preferidas. Estava lá quando cresceste e tiveste a tua primeira negativa no teste de matemática. Choraste um pranto de lágrimas enquanto te abraçava e aconselhava calma. Partilhei contigo todo o ingénuo medo da reacção dos teus pais. Foi a mim que contaste, pela primeira vez, de quem gostavas. Lembro-me que ele era mais velho que nós um ano, já era amigo dos "grandes" e dominava o recreio. Era eu quem ia confrontá-lo com as célebres perguntas do sim ou não, com os papéis de namoro decorados com os quadradinhos do aceito ou rejeito, onde havia espaço para apenas uma cruz. Para não variar, fui contigo preencher os boletins de matrícula para a Faculdade. Também estive lá quando os teus relacionamentos acabaram e precisavas de desabafar. No fundo, sempre te limpei as lágrimas e só te dei sorrisos.
Passados tantos anos, somos nós os grandes, quem decidimos o que queremos e o que fazemos. O mundo girou vezes sem conta, a nossa vida deu-nos uma panóplia de caminhos a seguir, mas aqui estamos nós, lado a lado neste banco de jardim. Podia dizer-te que te conheço de cor. Sei o que pensas quando metes a boca para o lado direito e torces o nariz, sei quantas vezes seguidas pestanejas quando ficas nervosa e sei que tens um sinal de nascença na coxa direita. Se sei tudo acerca de ti? Prefiro pensar que não. Prefiro acreditar que ainda tenho muitos anos para te descobrir, para te desvendar e aproveitar. Claro, nunca descurando o que já sei. Mas o que realmente te quero dizer é que o banco de jardim está pequeno demais para nós dois e o jardim está murcho para todo este arco-íris que vejo no teu rosto. Para ser mais concreto, o meu peito é pequeno demais para todo este sentimento que venho guardando há tanto tempo. 
Observo-te enquanto vês a criança correr desajeitadamente atrás da bola. Sorris e dizes que adoras crianças. Eu sorrio mas nem vi o que se passava. Não tirava os olhos de ti e estava determinado em dizer-te tudo o que sinto. E se te perdesse? E se, de repente, deixasses de ser quem és e ficasses diferente? Tinha medo, tanto medo disso. Mas somos crescidos e já percebemos que a vida é feita de medos, de inseguranças e incertezas, onde só quem é audaz consegue remar contra a maré e chegar a águas calmas. Há muito tempo que navego em alto mar, enfrentando a tempestade do medo. Hoje está na hora de enfrentar o Adamastor e espero ancorar em porto seguro, ancorar em ti.
Pensei isto tudo enquanto olhavas para aquela criança. Deliravas com os movimentos desengonçados, com os risos da mãe e as macacadas do pai. Para te ser sincero e egoísta, eu só pensei em ti e em como era bom ter as tuas pernas ao meu colo. O reflexo da nossa intimidade.
- Juliana? Juliana, ouves-me? - peguntei-lhe na tentativa de a chamar da nuvem em que estava.
- Sim, Pedro. Desculpa. Diz...
Respirei fundo, tirei-te as pernas de cima de mim e meti o meu corpo alinhado com o teu. Beijei-te a testa como tantas vezes o fazia. Gostava de o fazer, mostrava protecção, carinho, respeito e admiração. Hoje representava algo mais. Podia ser, sem saberes, o último beijo. Tudo dependia de ti, da tua reacção. Estava por tudo. Tremia que nem vara verde!
- Ju, eu gosto de ti! - disse como quem não quer dizer. Quase necessitei de cantarolar para dizer de forma perceptível.
- Eu sei, Pedro! Também gosto muito de ti! - ela riu-se com o seu ar mais natural e feliz. Apertou-me o nariz e fez uma careta engraçada.
- Não estás a perceber Ju. Eu amo-te. O meu coração bate por ti. E não é de agora. Estou apaixonado por
ti desde o tempo em que não sabias ler, brincavas com as Barbies e vias "As Três Irmãs".
- Pedro...- respondeu enquanto franzia a testa e metia um ar...diferente. Pela primeira vez fiquei sem saber o que ela pensava ou qual o tom da sua resposta.
- Eu percebo se tu...
- Cala-te parvo! 
Veio até mim, meteu-me as mãos na face e beijou-me! Aquele beijo foi o mais saboroso que alguma vez provei. Sonhei com ele tantas vezes que parecia já o saber de cor. O meu coração parecia querer explodir.
Olhei-te nos olhos e sorri, o quadro da vida tinha sido pintado com cores frescas e o teu rosto era a tela valiosa que qualquer pintor desejaria ter.
- Também gosto muito de ti, Pedro! Desde muito cedo. Sempre pensei que um dia metesses a cruz num dos papéis que te mandava entregar - Disse com um sorriso contagiante.
Eu não sabia o que dizer. Beijei-a, beijei-a e voltei a beijar. Encaixei-a nos meus braços e fiquei ali a saborear o momento.
- Promete-me que não vais mudar - pediu a Juliana.
- Só se for para melhor - respondi de pronto.
Aquele abraço foi perfeito e durou uma vida. Ela fitava o horizonte, com o ar de quem era dona de toda a felicidade do mundo. Eu, na minha cabeça, ouvia Tribalistas. Afinal de contas, o meu melhor amigo é o meu amor.

4 comentários:

  1. Tiago é lindo o que escreves. És um escritor de mão cheia e escrever de amor tens que sentir algo muito profundo. sam

    ResponderEliminar
  2. Adorei! Completamente! Continua o bom trabalho, aliás, o óptimo trabalho! És um escritor incrível :)

    ResponderEliminar