terça-feira, 8 de abril de 2014

Os desenhos que nunca te mostrei

Crescemos juntos como a boa vizinhança ordena. Eras uma menina loira, irreverente, pouco dada a bonecas e amante de correrias. Eu era um menino de óculos redondos, destemido, apaixonado pela bola e pouco dado a bicicletas. Ficar em casa era um castigo e, nos dias de chuva, só a folha de papel e as canetas de feltro continham a minha ânsia de descobrir a rua. Tu eras a menina que ajudava a mãe a preparar aqueles bolos deliciosos, eu o rapaz que aprovava as doçarias e partilhava os seus desenhos. Não todos, porque havia sempre aquele que dava vergonha de partilhar, pois por mais que me esforçasse nunca saía tão belo quanto desejava. 
Os anos passaram e o destino quis que me separasse de ti. Mudei de casa e deixei de fazer parte do teu dia a dia. De presença constante passei a visita esporádica. A vida dava-nos a conhecer tanta coisa que nós nem nos apercebíamos do que ela tirava. Ainda assim, continuei a jogar futebol, a escrever os meus textos e a desenhar o que me vinha à cabeça. A vontade de desenhar já não era dependente do tempo, era cada vez maior, uma verdadeira paixão. Fui para a Faculdade e deixei de te ver, não soube nada mais acerca de ti e, incompreensivelmente não me importei. Apesar de tudo, nunca te esqueci. Falava do teu jeito de ser a todos os que me rodeavam e recordava as tuas brincadeiras com aqueles que te conheciam. Para mim, serias sempre a minha melhor amiga, a primeira grande amiga que estava sempre lá, numa altura em que não importavam as curvas do corpo, a beleza do rosto ou o estatuto social. Por ti eu metia-me à frente da bola e lutava com os mais velhos. contigo eu ria sem parar, corria até à exaustão e partilhava o pão com manteiga que a minha mãe arranjava. Sabia que fazias o mesmo por mim. Sabia que estavas sempre pronta a empurrar-me o baloiço quando não havia mais ninguém para fazê-lo e os meus pés não chegavam ao chão.
Hoje, passado tantos anos, disseram-me que estavas mal, presa a uma cama de hospital e a lutar pela vida. O coração ficou mais pequeno e à minha cabeça vieram as tuas lágrimas de criança. Senti que precisavas de mim como sempre precisaste e eu não podia perder novamente a minha menina, logo agora que podia ser de vez. Esperei noite dentro pela possibilidade de te ver. Entrei e vi-te com o teu ar doente, cansado e frágil. Senti borboletas cá dentro, uma sensação estranha. Parecia estar com quem me conhecia melhor e, simultaneamente, cruzar-me com a mulher da minha vida. Senti que continuavas a ser especial. 
Sentei-me ao teu lado enquanto dormias, presa a tubos, cercada de flores e máquinas. A tua respiração ofegante marcava o compasso para o irritante "bip" oriundo daquela maldita maquinaria. A minha mão cobriu a tua e os meus dedos entrelaçaram-se nos teus. Apertei-a com força e pedi-te com toda a alma que ficasses. Em lágrimas, supliquei-te para que fosses a mulher forte que eu conheci, para lutares pela vida e ganhares este jogo, como sempre ganhaste. Pedi a Deus que te ajudasse e jurei nunca mais te largar. Tu não podias desistir de viver, eu não podia perder a mulher da minha vida. Colei na parede os desenhos que nunca te mostrei. O teu rosto pintado a canetas de feltro, de linhas irregulares e assimétricas. Mas eras tu, como te via e imaginava: imperfeita aos olhos de todos mas o ser mais perfeito que alguma vez conheci. Voltei para a cadeira e rezei a noite inteira por ti.

Sem comentários:

Enviar um comentário