domingo, 27 de abril de 2014

Um convite para jantar

A casa era pequena demais para a minha solidão. O circuito cozinha-sala e sala-cozinha aliviava o stress mas dava comigo em doido. Sentia-me um cão atrás do seu rabo, um burro atrás da cenoura pendurada à frente dos seus olhos. A minha cabeça estava atolada de pensamentos teus, de palavras não ditas, gestos por serem feitos e caminhos a seguir. O destino de todos eles eras tu, mas não sabia como chegar até ti. Queria ter mil e uma maneiras de ser teu, de te tornar minha, incondicionalmente minha. Para tal, precisava de ser subtil, discreto, educado e minimamente, apenas minimamente, interessado. Queria mostrar-te que te desejo mas sem ser em demasia. Queria mostrar-te que podia ser teu, mas que não me tinhas na mão. No fundo, queria estar contigo e esconder os meus sentimentos. Só um cego não via a minha dependência, só uma pedra não percebia o quanto te amo. 
Contigo sentia o sabor da descoberta, a adrenalina das novas vivências e a curiosidade pela vida. Tu conseguias dar-me o que é tão raro ter: a descoberta. Numa vida monótona, desinteressante e banal, tu rompias com o costume, eras uma lufada de ar fresco no meu dia.
Parei no hall de entrada, olhei-me ao espelho e falei para mim mesmo, em tom sério e responsável:
- Artur, tens de ser homem, um homem de verdade. Só assim conseguirás uma verdadeira mulher!
Estavas atrasada, o jantar estava na mesa e o vinho estava à lareira, a apurar o sabor. A sala estava a meia luz e a lareira aquecia o ambiente. Por pouco tempo, desejava. Dirigi-me até à aparelhagem e coloquei o cd do Marvin Gaye. Assim que entrasses e te sentasses à mesa, o sexual healing acompanhar-nos-ia. Estava tudo pensado até ao mais ínfimo pormenor. Só tu davas imprevisibilidade à noite, só tu fugias ao esquematizado e rompias com o normal. A minha caixinha de pandora. Só tu... o pormaior.
A campainha tocou e dirigi-me à porta. Abri lentamente e recebi-te com um beijo delicado no rosto. O teu rosto dava a felicidade que a minha casa precisava e a beleza que os meus olhos pediam. Recebi o bolo que trouxeste para a sobremesa, pedi-te o casaco e convidei-te para te sentares. Barafustaste porque querias cortar o ananás, pôr a cesta do pão e abrir o vinho. Não deixei. Hoje estavas por minha conta e, para mim mesmo, prometia tratar-te assim uma vida inteira. Dei-te a escolher o lugar e puxei-te a cadeira. Abri o vinho e meti o som a tocar. Perfeito, tudo perfeito, pensava para os meus botões.
O vinho regava o jantar e a música embalava a agradável conversa. Adorava isso em ti, uma de tantas coisas, diga-se. Eras a companhia que qualquer pessoa necessitava. Sorridente, bem disposta, inteligente, boa ouvinte e excelente comunicadora. Ao pé de ti não haviam silêncios constrangedores nem falta de assunto. Terminado o jantar, levantei a mesa, deixando apenas os nossos copos e o vinho, claro. Trouxe o teu bolo e os morangos que preparara. Tu levantaste-te da mesa e dirigiste-te à aparelhagem. Escolheste o som que mais gostavas. O Marvin Gaye repetiu sexual healing, um pedido especial da sua ouvinte. Ri-me com tamanha audácia. Dirigiste-te ao pé de mim, agarraste-me nos braços e sugeriste, enquanto abanavas a anca:
- Anda Artur, dança esta comigo! - Os teus lábios cantavam cada palavra e os meus ouvidos dançavam-nas.
Eu, desarticulado e completamente fora de qualquer ritmo, deixei-me levar por ti. Apenas estava empenhado em ter-te colada ao meu corpo e as minhas mãos na tua cintura. As pernas tremiam, esses eram os movimentos mais naturais que tinha para dar.
Tu sentias-me teu, entregue ao teu dançar e aos teus compassos. Olhaste-me nos olhos e encostaste a cabeça no meu ombro. Aproveitando tamanha proximidade, encostei a minha boca ao teu ouvido e disse em tom sedutor:
- Quero-te... 
Uma simples palavra bastou.  Rapidamente procuraste os meus lábios e beijámo-nos ardentemente. A minha língua tomava o gosto dos teus lábios e recebia as tuas mordidelas cheias de desejo.
Olhaste-me e sorriste. Abraçaste-me como quem abraça o mundo e encostaste a tua cabeça no meu ombro. Saboreaste a música, a dança e o momento.
Eu apertei-te para mim e fechei os olhos.
- Isto era tudo o que mais queria - confidenciei ao ouvido.
- Tu eras tudo o que desejava - respondeu-me repleta de sinceridade.

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