segunda-feira, 19 de maio de 2014

A porta da rua é serventia da casa

Desci a praceta de mãos nos bolsos e cabeça baixa. O caminho era penoso, o humilhante desfile do fracasso. A rua sempre foi o nosso palco e nós sempre fomos a candeia que iluminava aquele lugar. Passar por lá, sem ti, era inimaginável e fugir de ti por aquelas ruas era brincar com o fogo. Lembram-me a magia de cada lugar, todas as páginas da nossa história, são as ruas das nossas vidas. Escrevemos a palavra amor em todas as intersecções, para nos amar-mos em cada esquina. Um dia jurei que iríamos dar nome àquela pequena praça. Mas só a praça fica para sempre. 
Confesso que deixei de passar por ali, deixei de viver naquelas ruas e de sentir as cores daquelas casas. Deitar-me naquele chão a observar o céu tornava-se ridículo. O chão já não era firme e o céu não tinha nada de azul. As nuvens já não tinham o formato do teu rosto e tu já não vias o meu nome escrito no céu. Fizeste-me sentir um estranho no local onde cresci, apetece-me fugir de onde sonhei estar. No fundo, sentia que já não pertencia ali, não mais aquele lugar estaria pronto a receber-me, com a mesma felicidade com que o vivi. Apressei o andar, queria ultrapassar as recordações, as vivências e o carinho que partilhei naquelas ruas. Passar despercebido era agora o intuito, eu que me achei dono daquele espaço. A vida muda e só as ruas permanecem, com o mesmo nome, com o mesmo caminho. As pessoas são meramente decorativas, a rua, essa, está lá para ficar, cheia de histórias por contar. Que ousadia achar que tudo aquilo era exclusivamente meu.
Quando ia a meio, mesmo no centro, vejo-te. Parecias feliz, como quem se sente em casa e conhece todos os caminhos como a palma da sua mão. Tens aquelas ruas tatuadas no peito e partilhas os seus encantos com um novo alguém. Sinto-me claustrofóbico e agoniado por ver uma nova pintura na minha tela, uma nova estrela naquele passeio da fama. O tempo passa mas ainda vivo com o teu nome tatuado no meu peito, na esperança de me voltar a perder naquele lugar. Senti um apunhalar tão grande que me apeteceu ajoelhar. Senti a respiração prender e o ar dissipar-se, o oxigénio daquelas ruas era vosso e eu não podia respirá-lo. Recusava aquele ar, sentia-me a desfalecer e tu pouco te importavas. Apeteceu-me pôr as mãos no peito e agarrar o coração com tanta força que ele parasse de saltar, de protestar e gesticular de tamanha raiva. As pernas tremeram-me e o andar fracassou. Parei para não parecer desarticulado. Respirei fundo na ânsia de conseguir encontrar algo que ainda fosse meu, uma réstia de esperança que me levasse a sair dali, com o mínimo de dignidade possível. Pé ante pé, fui indo, como quem auxilia o andar com as mãos, mas tudo o que fiz foi meter os pés pelas mãos. Escondi-me com a ajuda das velhas paredes, desapareci, sozinho, por entre aquelas casas esquinadas. Sozinho... era mesmo essa a palavra. Aquela praceta era o purgatório do mundo e eu a única alma perdida, à espera da redenção.
- Este lugar foi o melhor que já tive mas já não há nada meu aqui. 

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