sexta-feira, 23 de maio de 2014

Amo-te, e o resto é um passo de cada vez

"Amo-te, com todas as forças que o mundo utiliza para se mover". Olhei-te com toda a gratidão de um Homem e com as lágrimas no limite do ir e do ficar. Era difícil evitar que escorressem, eram o selo da verdade que te falava. Não tinha como olhar para ti e não agradecer a dádiva que eras. Sentia-me um homem de sorte, um predestinado ao paraíso da felicidade. Não podia levantar-me, agarrar-te ao colo e girar-te duas ou três vezes, não podia saltar de alegria e gritar o teu nome a cada salto, mas podia dizer-te o que fazia a minha alma gravitar. Podia olhar-te e dizer-te que o formigueiro que sentia pelo meu corpo era motivado pelo teu rosto e a dormência dos meus pés era simplesmente motivada pela textura do céu.
Fazia um ano desde o momento que julguei ter-te perdido. Lembro-me como se fosse hoje daquele estridente barulho, do estilhaçar dos vidros e daquele impacto violento que me fez perder os sentidos. A última coisa que fiz foi gritar o teu nome, disso tenho a certeza. O resto foi um apagão total. Julguei ter morrido. Quando acordei e voltei à vida, queria saber como estavas, se aquele sangue que via era teu, se estavas viva e ainda conseguias responder-me, debaixo daquele monte de destroços a que já não se podia chamar de carro. Tu, com a dificuldade que a situação aparentava, gritaste-me. Era o meu nome que chamavas, em desespero, em socorro. Tentei chegar a ti, mas não fui capaz. Não que não lutasse, que não insistisse, que não fizesse todos os possíveis para ir, simplesmente o meu corpo estava impossibilitado de o fazer. Estava preso ao chão, com uma inércia de movimentos a que julguei momentânea.
Fomos para o hospital e lembro-me de perguntar insistentemente por ti. Os médicos disseram-me que estavas bem, ferida mas estável. Dentro de dias irias estar recuperada, de saúde. Sosseguei. Sabia que estava em cacos, mas tu estavas bem e isso era tudo o que importava. Nunca me vou esquecer das palavras dos médicos quando entraram no meu quarto, agarraram-me a mão e disseram, por entre medo e reticências que nunca mais iria conseguir andar. O mundo para mim desabou naquele momento. O choque de não me poder ver mais do jeito que devemos ser - verticais - era imenso. Não sentir o peso do meu corpo, não conseguir caminhar ou sentir a areia molhada... era terrível. Mas pior que tudo isso, o que iria ser de nós? Como é que conseguiria acompanhar a tua vivacidade, a tua vontade de viver? Iria ser para sempre aquele estorvo, iria ser sempre um limitado que te acabaria por limitar. Chorei, chorei tanto que ninguém imagina. As noites que se seguiram foram dolorosas demais. Sentia as lágrimas nas minhas mãos e imaginava que eram tudo o que me restavam. Não te podia pedir para não partires, não podia sequer fazer-te ficar. Eu amava-te, amava-te tanto que tinha de querer o teu melhor. Eu era um entrave e o melhor era seguires os passos de alguém que os pudesse dar, seres feliz com alguém que te pudesse mostrar o mundo e a sua felicidade escondida. Lembro-me de te rejeitar cerca de uma semana. Mal comia, não dormia e evitava ver-te. Fazia de conta que descansava quando aqui estavas. Sentia a tua presença mas procurava não dar a conhecer. Recordo as primeiras conversas que tivemos, pedi-te para partires, para ires sem olhares para trás, porque não tinhas culpa de nada. Disseste-me para ter calma, recuperar bem e que falaríamos melhor em casa. Quando cheguei, tinhas-me preparado uma festa de boas vindas, com todos os nossos amigos, com toda a família. Sentaste-te ao meu colo e disseste que aquele era o teu lugar. Beijaste-me, sem me deixares responder. Derreti-me, o gelo que estava a tentar construir à volta do peito partiu-se em três tempos e em quase tantos lados quanto a minha coluna. Senti-me realizado, deixei de ligar à minha inabilidade física. Era o teu homem e queria provar-te que te merecia, que não te irias arrepender da decisão tomada.
Hoje, sei que te posso perder a qualquer altura, porque a vida é dura, porque os problemas só multiplicaram e as facilidades de uma vida foram subtraídas por aquele maldito acidente. Eu pensei estar morto, ter-te perdido. Pelos vistos enganei-me e a partir daí vivo cada dia como se fosse o último, na ânsia de te aproveitar como nunca. Não sei o que o futuro nos reserva, apenas sei que nunca me julgarás pela "capa" e não tenho palavras para descrever isso. És a mulher da minha vida, a minha vida, a força que me mantém vivo. És as pernas que me fazem correr atrás dos sonhos. Amo-te, não há outra maneira de te dizer obrigado.

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