quinta-feira, 8 de maio de 2014

Amor de Verão - um castelo de areia.

Era Verão, o calor dava toda a energia que uma pessoa necessitava para a boa disposição. Os dias eram grandes, calorentos e cheios de luz. As avenidas enchiam-se de pessoas e os turistas conquistavam a minha cidade. Todos os anos, por esta altura, as ruas ficavam vivas, onde se misturavam estilos, culturas e cruzavam-se as mais variadas línguas. Sentia-me um estranho dentro da minha cidade, sentia-me uma minoria em terras que conhecia de cor. Mas uma cidade balnear vive disto e todos nós aprendemos a gostar. O meu passatempo preferido era o de pegar na toalha, na garrafa de água e vestir os calções de banho. O pé até chorava para entrar nos chinelos. Deixar os casacos, as camisolas e as meias para trás é um alívio tão grande que o corpo só sabe agradecer. O sol queima até os ossos, mas a pele há muito que implorava por este mimo. A praia é o ponto de encontro da malta, havia sempre espaço para o reencontro de grandes amigos. E, a cada ano, a praia dava-nos a conhecer novas pessoas, novas amizades e aventuras.
Foi aqui, neste imenso areal, que dei os meus primeiros beijos, bem salgados, por sinal. Foi aqui que pedi em namoro, pela primeira vez, uma rapariga e foi durante o verão que o meu coração perdeu o sono. Tudo isto por causa de uma rapariga espanhola, de seu nome Cármen.
A Cármen era loira, de olho azul e de pele branca, bem diferente da tonalidade morena que o sol distribuía. Quando chegava à praia era facilmente reconhecida. Primeiro, pela beleza, depois a cor. Cármen tinha agora 20 anos, o corpo mudara e os gostos também. Conhecia-a desde os seus 14, quando o biquini ainda ocupava mais espaço e a parte de cima parecia almofadada. Foi o meu primeiro amor de Verão. Foi ela quem me ensinou as primeiras palavras espanholas, quem me mostrou o quão próximo éramos e que os sonhos não tinham fronteiras. Lembro-me do primeiro Verão. Tinha 15 anos e conhecia-a aqui, nesta praia. Uma amiga dela, bem atiradiça, por sinal, simpatizou com um amigo meu. Rapidamente arrastou-a para junto de nós e quiseram saber os nossos nomes. Eu fui por arrasto e a Cármen foi um acréscimo. Meio envergonhada, olhou-me várias vezes, sempre contida, dando-se pouco a conhecer. O sorriso que dava chegava por todas as palavras não ditas. Cedo percebeu a minha timidez, não era daqueles de mandar palavras ao vento, era calmo, pacato e contido. Um pouco como tu, Cármen. Os passeios nocturnos tornaram-se frequentes e criámos uma empatia bastante agradável. Dois dias antes da tua partida, beijei-te, naquela praia, na minha toalha. Tínhamos acabado de sair do banho, vinhas salgada e de pele cada vez mais morena. Dirigiste-te a mim com o teu caminhar seguro, digno do olhar de toda uma praia. O sol, atrás de ti, respeitou-te tanto que deixou os teus olhos iluminarem o caminho. Fiquei vidrado naquele azul. Eras linda, a mulher ideal. Chegaste-te até mim e querias um abraço. Dei-te um beijo. Não te importaste nem um pouco. Sucederam-se beijos atrás de beijos e as mãos seguiram o exemplo dos lábios. Deixaste-me o teu contacto e a promessa de voltares. 
Durante o ano fomos falando, sem precipitações ou comprometimentos. Apenas falar, manter a amizade que o Verão concretizava em amor. Bem ao estilo balnear. E em cada verão vieste e falámos, sentiste e amámos. A idade trazia novas etapas e, aos 17 trocámos tardes de sol por tardes de prazer. Depois tiveste um ano sem vir, dois sem te ver. A vida trouxe-te problemas familiares e tiveste de te safar sozinha, coisas que a idade traz e das quais não mais se liberta. Hoje chegas do alto dos teus 20 anos, com um corpo esculpido pormenorizadamente e com uma confiança maior. Cresceste, estás uma mulher. O teu corpo tem curvas que desconhecia e já não te incomodas com o olhar generalizado de toda uma praia. Não te importas do tamanho do teu biquini, não queres saber se todos aqueles homens te desejam ou te julgam. Vieram para a zona das rochas, onde durante tantos anos nos encontrámos. Deixaste de vir com os pais e trouxeste somente os amigos. Estavas crescida, uma mulher, dona do teu nariz e de novos interesses. Talvez deixasses de ser a menina perfeita, talvez fosses apenas a perfeição de mulher.
Eu, no auge dos meus 21 anos, levantei-me da toalha e dirigi-me até à tua. 
- Cármen? - perguntei meio a medo, temendo falhar o reconhecimento
- Tu olhaste-me, estranhaste-me e entranhaste-me. 
- Rafael? - Sorriste e vieste dar-me um abraço.
Senti que a cumplicidade entre nós não tinha desaparecido durante a tristeza do Inverno. Eras mais desinibida do que os teus 20 anos, mas a mesma Cármen de sempre.
Partilhámos todas as peripécias, as novidades e as voltas que a vida deu. Apresentaste-me todos os teus amigos e reconheceste os meus. Levei-te a todos os sítios que costumavam ser os nossos, menos um. Não te levei a casa, não entraste no meu quarto. Não que não te tenha sentido, mas apenas porque trocámos o quarto por noites na praia que nos juntou. Fui teu ali, ao pé do mar, guiado pelo azul dos teus olhos. Foste minha naquelas noites, salgada como sempre.
E o verão passou-se entre beijos e piadas, entre sorrisos e histórias por contar. Dei-te a mão e caminhámos pela praia, tu a mais bela, eu o mais invejado.  Assim são os amores de verão, tal e qual como os castelos de areia, não são para durar mas não deixam de ser construídos.

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