sexta-feira, 16 de maio de 2014

Coração vivido, coração sofrido.

Chegaste e perguntaste-me como estava, se a vida seguia em frente e se os fantasmas do passado iam aos poucos deixando de me perseguir. Eu sorri e achei a maior das piadas ao teu eufemismo. Preparei a voz para o monólogo carregado de tamanho sentimento e com todas as hipérboles necessárias. Tu ficarias surpresa com tamanha dor, eu ficaria aliviado por mandar cá para fora todas as minhas lamurias aprisionadas. Disse-te que era complicado, que a vida só aos poucos se ia habituando a esta nova maneira de a viver. Acabaste-me a frase perto do final:
- Sim, de repente fica um vazio tão grande que nos perdemos nele! - eu sorri e voltei a tentar chamar para mim a conversa
- Exacto, mas não é só isso...
Continuei a falar de sonhos desfeitos, de sentidos esquecidos e da coragem escassa. Voltaste a terminar a ideia.
- Custa muito, não dá vontade de acordar, parece que tudo o que foi é o máximo que a tua vida tinha para dar...
Eu fiquei incomodado. Começava a ser assustador ver-te terminar as frases que construía, sempre da forma como pensava. Continuei a contar o meu estado de espírito mas sentindo-me cada vez mais usurpado dos meus sentimentos.
Prossegui dizendo que o tempo é o nosso pior inimigo, pois dá-nos rotinas, sentimentos profundos, conhecimentos e vontades que depois não sabe levar. Fui novamente interrompido, perto da conclusão.
- É isso mesmo, o tempo traz tudo, lentamente, mas quando leva, leva de repente, sem pedir autorização ou ajuda. O tempo corre contra nós e será sempre o nosso fiel inimigo. Está sempre cá, nunca te larga.
Deixei de falar, de pestanejar e de pensar. Fiquei a olhar-te de alma vazia e sem nada de novo para acrescentar. A minha cabeça apenas se esforçava para tentar gravar a tua frase. Era verdadeira demais para cair em esquecimento. O meu festival de lamentações colidia com a tua sensatez. Que motivo tinha eu para partilhar tristezas quando tu já as sabias de cor? Eras um coração vivido, como eu, eras um coração sofrido, como eu. Que mais teria para acrescentar? Perante isto, decidi mudar o rumo da conversa:
- Mas nem tudo é mau, agora tenho tempo para mim, como há muito não tinha. Agora sou o exclusivo dono do tempo e apenas eu dito o rumo que lhe quero dar.
- É isso, sabe bem fazer o que nos apetece quando nos apetece, sem medo de olhares, opiniões ou julgamentos.
. Confere...e os amigos são tudo! - arremessei mais uma opinião pessoal.
- São o nosso porto de abrigo, alguém que só nos quer bem, prontos a dar sem exigir o receber.
Sorri e disse que não fazia sentido continuar a conversa, as minhas palavras não tinham personalidade, não tinham o cunho pessoal que pensei ter-lhes dado. Terminavas as minhas frases como quem roubava as ideias, dando-me a conhecer sentimentos que pensava serem só meus. E ainda dizia que eram os outros os egoístas... Riste-te da minha reacção e mudaste de conversa. Nenhum outro tema fluiu tão bem. A vida dava-nos as suas amarguras como pontos em comum e era isso que nos dava sintonia. Quando te despediste senti-me pequeno, como quem tinha sido roubado da sua experiência, a experiência de uma vida que tem o mundo à espera para entrar.

2 comentários: