quinta-feira, 1 de maio de 2014

Fala, grita, ama-me

Falas-me alto, gesticulas de um modo descontrolado, nervoso e impulsivo. As palavras que deixas escapar não são pensadas, apenas vêm com o intuito de me atingir, de se anteciparem a quaisquer outras que possa usar. Rodopias sobre ti mesma, levas as mãos aos cabelos, soltas sorrisos irónicos e choras de tanta raiva e frustração. Diriges-te até mim e recuas. Estás completamente fora de ti. Eu podia ter escrito tudo isto numa folha de papel em branco, ainda antes de te ver e presenciar tal cena. Não é a primeira nem há-de ser a última vez que o fazes. Uma desavença é natural numa relação e, para te ser sincero, até apimenta ainda mais as coisas entre nós. A tua fúria entusiasma-me, a tua cólera e cegueira pela razão excita-me. Sinto-me um mero espectador de primeira fila. A alta definição que disponho permite-me ver com plena exactidão o teu tremor do lábio e o mais doentio arregalar de olhos que conheço. Permaneço calmo, sereno e alheado da tua vivacidade. Assisto a tal comportamento com a maior satisfação do mundo. Adoro ver-te fora de ti. Sei como isto acaba, sempre do mesmo jeito: vens ao meu encontro de punhos fechados, irás bater-me no peito duas vezes com cada mão e, como quem não quer a coisa, vais-te aninhando em mim. Quando deres por ti estarás no meu regaço, presa nos meus braços e irás encolher-te, rendida àquela sensação de conforto. Olharás para mim e as lágrimas secarão. Resta o olhar e o riso, de quem fez e disse tudo para acabar nos meus braços. Estás em mim, tanto por fora como por dentro e agora é a minha vez de expor os sentimentos. Beijo-te e digo que te amo. Isso basta, é tudo o que vai em mim e tudo o que preciso para ganhar a batalha. 

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