terça-feira, 20 de maio de 2014

O dia em que tropecei em ti

Andava em círculos, como quem não sai do mesmo lugar. A cabeça estava à altura do coração e nenhum dos dois à minha altura. Estava perdido, metido num tornado de emoções destruidoras de apenas uma coisa: a minha vida. Sentia-me a minha pior companhia, o meu pior inimigo, o sujeito que não merecia caminhar neste chão, que não merecia viver com um mero bater de coração. E como aquele coração, cansado de sofrer, ainda arranjava forças para me dar vida? Apenas o coração batia neste corpo, era o único sinal de vida que me restava. Tudo o que fui perdeu-se nesta cidade, esvoaçava com as folhas de jornal, empurradas pelo vento. A chuva lavava tudo, menos a minha alma e o sol de cada novo dia não me levava a dor. Procurei sair da tempestade que eu era, mas ninguém me conseguia abrigar com a completude que necessitava.
Um dia, quando a cabeça apenas se importava em controlar o chão que os pés pisavam, tropeçaste em mim, pisaste-me a ponta do meu sapato e fizeste-me olhar para cima. Obrigaste-me a erguer a cabeça e, bem lá do alto, ver o teu rosto. Para mim foi um tropeçar mas para ti foi de uma premeditação genial.
- Por onde andavas? Porque me deixaste aqui, durante tanto tempo, ao frio?
- Calma, estive sempre aqui, tão perto que não me vias, tão próximo que me tornei invisível. Apenas esperei que reparasses em mim, apenas esperei que o tempo nos juntasse e mostrasse que somos mais do que aquilo que os olhos vêem.
Ali estava ela, uma mulher linda, digna de todos os amores (im)possíveis. Do carnal ao platónico, era ela, o corpo dos desejos, a musa de todos os poemas. O tempo fez-nos encontrar naquele espaço, de coração roto e com tanto por preencher. Não sabia como era possível aquela dádiva dos céus estar ao meu lado, com toda a serenidade que a minha vida não disponibilizava. Talvez fosse a morte, quem sabe viesse convencer-me a dar-lhe a mão e levar-me para o outro lado.
- Isto é real? - perguntei sem caber em mim, como quem se prepara para seguir a luz ao fundo do túnel.
- Sim, sou real. Também já estive assim e sei por que passas. Apenas quero dar-te a mão e viver. Vive comigo, sem prazos por cumprir. Vamos apenas viver, cada dia e cada noite, sem sonhos ou planos.
- Parece-me bem, vamos viver. Sem sonhos ou planos. Eles matam e eu acabei de renascer.

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