sexta-feira, 2 de maio de 2014

O fim da viagem é o encontro dos amantes (3)

(para quem não leu a 2ª parte: O fim da viagem é o encontro dos amantes (2) )

A vida tem destas coisas, ora nos leva aos píncaros do mundo, fazendo-nos tocar nas nuvens e inspirar todos os nossos sonhos, ora nos leva para os confins do inferno, coberto por uma camada terrestre que denominamos de chão. A minha maior batalha começava a ser esta: manter a minha sanidade mental. Nunca pensei estar, tantos anos e acontecimentos depois, preso entre estas duas mulheres, como se o mundo não tivesse continuado o seu percurso normal e não houvesse mais nenhuma para além delas. Uma foi a primeira, a outra foi a tal. E eu, eu não passo do anormal que não sabe descolar-se das suas paixões, que respira o que sente e não consegue vencer os fantasmas do passado. O passado...talvez o meu maior inimigo, um inimigo perigoso, de saia justa e cheio de curvas. Um inimigo com dois nomes: Rita e Íris.
Neste último mês tinha acalmado a ânsia de te conquistar. A desilusão do teu silêncio fez-me perceber que talvez já não passasse pela tua vida. Talvez sejas tu a passar pela minha, em ritmo apressado, só para me dar a sensação esquecida das boas recordações, do primeiro ter, do primeiro sentir e do primeiro querer. Tudo isto voltou contigo, tudo isto partira com o teu silêncio. Não posso sofrer demais por ti, por muito que o possas merecer. A Íris ensinou-me isso. Nunca te arrependas do que fazes, por muito mal que estejas ou possas parecer. Se queres algo, luta, vai, faz e concretiza. Sê o que quiseres, quem quiseres e com quem quiseres. No fundo, só tu importas e o resto não passa de nada (haverá alguém mais egoísta?). Primeiro tu próprio, só depois tudo o resto. As suas lições de vida...eu só podia tirar o bloco de notas, o lápis de carvão e apontá-las. Era com cada uma...
Neste mês longe de qualquer possibilidade da tua existência, sentia-me muito mais liberto dos desejos que me prendiam às memórias. O tempo ensinava o que a mente teria de fazer para o corpo respeitar. Todas as idas para o trabalho foram marcadas por constantes cafés no sítio do nosso encontro, por olhares expectantes e fotográficos, na aflição por te encontrar. Mas já não te procurava desesperadamente. Tu, Rita, eras um bónus da vida e não uma necessidade. O meu passado ensinou-me isso, o outro rosto do passado.
Mas eis que um dia, em pleno escritório, o telefone toca e oiço uma voz envergonhada do lado de lá.
- Estou? Doutor André? Prazer em ouvi-lo.
Eu conhecia aquela voz, não naquele timbre mas conhecia-a. Faltava-lhe alegria para ser a voz que a minha cabeça reconhecia.
- Sim, é o próprio. Estou a falar com...
- A Rita, não sei se ainda se lembra de...
- Rita! Claro que me lembro, amiga... - interrompi logo qualquer tipo de formalismo. Tentei manter-me contido e sério. Só Deus sabe o esforço para não me derreter todo logo à mínima palavra.
- Olá André, desculpa incomodar-te mas eu precisava da tua ajuda. Da ajuda do Doutor André. Posso combinar uma hora para te expor o problema? Eu pago tudo o que for preciso.
Senti o tom delicado da conversa e a gravidade da situação. Percebi que ligou não em busca da felicidade mas na tentativa desesperada de ser salva da agonia.
- Claro, 19.30 no restaurante "Talher de ouro"?
- Desculpa mas não posso. Explicarei o porquê, mas só posso algo breve.
Fiquei intrigado. Sabia que estava com problemas, mas ao mesmo tempo fazia o impossível para não me deixar entrar no seu coração.
- E se bebêssemos café às 22 horas ? Algo rápido. - sugeri sem ter mais alternativas
- Não, o que tenho para falar contigo é trabalho e queria passar aí no teu escritório numa hora devidamente marcada.
- Nem penses! Para ti não tenho horário estipulado nem trabalho. Para ti tenho amizade e disponibilidade. Tu precisas do André, não de doutores ou outros títulos!
Ela sorriu e puxou as lágrimas para dentro. Senti tal acto de coragem. O segundo acto de coragem. O primeiro foi ter-me ligado.
E assim ficou, consegui marcar um café para hoje às 22 horas, em minha casa.
O que será que ela tem? Porque estava a precisar assim tanto de mim e da minha profissão?
 E mais uma vez brinco à apanhada com a vida: aquele toca e foge desesperante, aquele chega perto mas não agarra.

Sem comentários:

Enviar um comentário