quarta-feira, 7 de maio de 2014

O lago dos desejos

Dirigi-me ao pequeno lago onde passámos as nossas primeiras tardes de Outono. Lembro-me dos patos irritantes, da brisa leve que se fazia sentir e do chão coberto de folhas. Aquele banco de pedra era nosso, tinha as nossas iniciais gravadas e ninguém se atrevia a apagar o que marcámos profundamente. O teu colo era a minha poltrona e aquele ambiente todo o meu reino. Adorava quando me chamavas de "amor", como se esse fosse o meu nome e só tu o conhecesses. Nunca mais ouvi um "amor" tão certo, nunca mais vivi um amor tão real. Olho para o lago e vejo que a água está suja, coberta de folhas e de lixo. Parece abandonado, o sítio mais perfeito que alguma vez conheci. Recordo-me de passarmos tardes a rir, de falar até a garganta secar e de mandar tostões para o lago, pedindo todos os nossos desejos. Eram tantos que não havia dinheiro que chegasse. Como era engraçado pensar no amanhã como se ele fosse a maior certeza de todas. Enquanto somos novos somos assim, nunca se pensa no fim. E estar apaixonado é ser novo, é ser criança outra vez.
Hoje, passados tantos anos, sei que o fundo do lago é nosso. Talvez a única coisa que restou do "nós". Os nossos desejos estão ali, diante de mim, literalmente mandados por água abaixo. O teu amor por mim acabou, deixei de fazer sentido e tu deixaste de sentir. O único amor que tenho é o amor próprio, que me mantém forte o suficiente para te encarar na rua, que me dá a força necessária para ir fazendo o teu luto. E vir aqui, ao nosso lugar, é a maior prova de amor próprio que te posso dar. Venho fazer o luto, prestar as minhas homenagens à nossa sepultura. Aqui nasceu o nosso amor, irreverente, contagiante e sonhador, aqui jaz tudo o que fomos e sonhámos. Comigo não trago moedas nem flores para mandar ao lago. Trago pequeníssimos bocados de todas as nossas fotografias. Vou mandar-te para junto dos teus sonhos, dos teus desejos e planos. Provavelmente, todos aqueles que já não anseias. Sei que já não sonhas com estas moedas, já não és quem conheci e amei. Para ti não passam de moedas, mas nas minhas lembranças ainda pertences a estes sonhos e àquele tempo. Mando todos os pedaços do teu rosto para perto do que foste. Quanto a mim, eu pertenço-me, sem os sonhos que neste lago eu pedi e em ti depositei.
Aqui estou eu, frente ao lago dos meus sonhos, realizando a cerimónia fúnebre que nunca desejei.

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