quinta-feira, 15 de maio de 2014

O prometido é devido

O acaso tem coisas do fantástico e do bizarro. Chovia a potes e a minha gabardina estava encharcada. Pela mão levava o mais precioso tesouro que a vida me deu e a quem dei vida, o meu filho. Como qualquer bom pai se obriga, dei-lhe todo o abrigo que um chapéu de chuva pode conter. A sua saúde é tudo o que interessa. Naquela fatídica hora de entrada, ele rapidamente se apressou a correr para se encontrar com a Gabriela. Muito eu ouvia falar da Gabriela, lá em casa. A Gabriela isto, a Gabriela aquilo, a minha amiga fez isto, deu-me aquilo. A amizade genuína é algo tão natural para uma criança de 8 anos que qualquer pai encara com naturalidade essa fase do crescimento. Hoje, o Daniel fazia anos e a Gabriela tinha-lhe prometido entregar uma carta. Uma carta num dia de aniversário é algo especial, ainda para mais vinda de uma rapariga...
- Essa Gabriela deve ser uma menina incrível, Daniel - dizia-lhe incentivando-lhe o gosto pela sua amiga. Ele sorria de contentamento e acenava afirmativamente a cabeça.
- A minha melhor amiga, pai, conhece-me muito bem! - e o sol nascia-lhe na face.
Eu sentia a emoção da felicidade estampada no rosto do meu filho e recordava as boas sensações da vida.
Mas nesse dia de aniversário do Daniel, enquanto levava a mochila, o bolo e os refrigerantes, lembrei-me de uma das promessas da minha vida. Alguém me prometeu afincadamente, jurando a pés juntos, amar-me para sempre, ficar comigo para toda a vida. Frases tão fortes quanto estas não se apagam da memória e deixam uma ferida que só o tempo cicatriza. Lembrei-me dessa frase e senti um misto de carinho e tristeza. Numa só palavra: nostalgia.
Já tive uma rapariga assim, que me conhecia como ninguém, a quem entregava a minha mais pura essência, sem medo de julgamentos. 
- O que foi pai? Em que estás a pensar?
- Sim, Daniel, estava a pensar que também já tive uma Gabriela, quando era mais novo.
- Na minha idade?
- Não, mais velho, quando das palavras já devia sair a verdade - Ele ficou um pouco baralhado, como os seus 8 anos obrigam.
- A serio? era bonita como esta? Olha que esta é muito esperta. É das melhores da turma!
Eu sorri e revi-me naquele fedelho. Era esperto, engraçado, encantador. Era tudo o que fui e não consegui ser, era tudo o que sonhei e queria ter.
- A minha também era, Daniel, muito inteligente sim. E bonita.
- Era a mãe? - a pergunta mais previsível de todas, feita pelo inocente de palmo e meio.
Já dentro da escola e ao abrigo da chuva, baixei-me, meti-lhe a mala às costas, dei-lhe um beijo no rosto e disse-lhe calmamente:
- Daniel, a tua mãe deu-me o que de mais importante e perfeito tenho na minha vida! Mas ela não era a minha Gabriela. A tua mãe veio mais tarde, já mulher.
O garoto ficou surpreendido por ter mencionado uma rapariga perfeita que não fosse a sua mãe.
Eu ri-me e disse-lhe para ir para dentro, para estar com atenção, aprender e divertir-se com os seus amigos. Eram os seus 8 anos e a sua vida era isso, aprender a ser feliz. Entreguei o bolo e os refrigerantes à funcionária e pedi-lhe para olhar por ele. Despedi-me e vim embora.
Quando olho para trás, vejo a Gabriela frente a frente com o Daniel. Entregou-lhe a carta e deu-lhe um beijo na bochecha. Aquela bochecha gélida ficou corada em três tempos e o miúdo imóvel. Eu, um pouco longe do epicentro de toda a empatia, aprendi a lição através dos miúdos. Ainda haviam meninas que cumpriam o que prometiam.
Olhei para o lado e deparei-me com uma mulher encantadora, morena, de cabelo pelo pescoço e lábios carnudos, pintados a tons de vermelho vivo. Olhei-a e reconheci a sua presença. Ela olhou-me e caiu na ironia.
- Olá, como estás?! - Pergunta de retórica de quem apenas pretende cumprimentar
- Como estás, Mónica? - Perguntei como quem apenas quer perguntar.
- Vim trazer a minha filha...
- A Gabriela?
- Sim - Riu-se da ironia da vida e das suas encruzilhadas.
- Eu vim entregar o Daniel. Hoje faz anos e alguém prometeu-lhe algo que ele deseja muito. Pelos vistos ainda há quem cumpra o que promete - Rematei como quem mistura vidas e sentimentos. Calei-me de imediato, sentindo o peso da minha deixa.
Ela sorriu e ficou a pensar no alcance das minhas palavras. Por vezes espetam, magoam e despertam sensações perdidas no tempo. Tocam na ferida que fica sempre por sarar. As palavras são armas de arremesso, sonhos e sentimentos. Talvez para a Mónica não passem de promessas soltas ao vento.
Afastei-me, dirigi-me ao carro e entrei. Do lado de dentro, observei os dois pequenos. Aquela Gabriela é a perfeição aos olhos do meu filho, e a sua mãe foi a minha Gabriela, sem cartas e com promessas por cumprir.

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