domingo, 18 de maio de 2014

O que vês em mim?

Eles caminhavam sozinhos por aquela rua estreita. Ela apertou-lhe a mão e parou o passo. Rodou o tronco e ficou de frente para ele. Pensou nas palavras que iria dizer e perguntou com a maior das dúvidas:
- O que vês em mim?
- O que vejo em ti? - repetiu a pergunta, por tão disparatada que era.
- Sim, o que vês em mim.
- Hoje vejo uma mulher, que me dá a mão e guia-me na vida, que se entrelaça nos dedos e nos sentimentos.
Após ouvir religiosamente aquelas palavras, puxou o lábio superior esquerdo para cima. Resposta insuficiente. Queria mais, por muito melódica e poética que a resposta tivesse sido.
- Não sejas poeta, sê antes verdadeiro. Quero que me definas, não que me conquistes.
O descontentamento que demonstrava ia na linha da insegurança que a fez falar. Ele percebeu que o peito dela estava encravado pelas reticências que a sua cabeça criava. Cabia-lhe pôr um ponto final no medo.
- Olha para mim. És o meu espelho. És o rosto mais bonito que alguma vez terei. És o coração que me enche de vida e o corpo em que me sinto vivo. És tudo, tudo o que bate certo.
 Com aquelas palavras ela acalmou, mas ainda longe da serenidade que a caracterizava. A sua respiração já estava mais próxima da dele e a sua testa já não franzia com a mesma frequência. 
- Tenho medo de te perder, tenho medo que deixes de gostar de mim.
- Eu não tenho medo, Telma. Continuo a perder-me em ti desde o primeiro dia que o destino nos juntou.
Beijou-a de seguida, com língua, com intensidade, com desejo e com toda a alma. Foi com tudo, para ela perceber a dimensão daquele amor. Entregaram-se ao beijo, mas ainda havia um mas...
- Nunca pensaste no adeus? Tudo à nossa volta está a ruir, as nossas referências caíram. Isso nunca te fez duvidar?
- Não. Também tenho medo, afinal de contas, quem ama tem medo de perder e eu sei que o amor para ser amor tem de ser sentido pelos dois. Mas eu amo à minha maneira, e um amor à minha maneira é total, de uma entrega sem fim, completo de sonhos e confiança. E eu sei que me amas, vejo-o nos teus olhos, sinto-o no teu toque.
- Não achas que és um naive ao acreditar que um amor, nos dias de hoje, é isso tudo?
- Não. Se o amor não fosse isto tudo, não seria amor. É por conter tudo isto que o amor é tão raro, é por sentir tudo isto que só te amo a ti.
-Pára! estás a fazer-me chorar, de alegria, de tristeza, de frustração e de medo! És doente! És um cretino que joga com as palavras. Como saberei que não jogarás do mesmo jeito com os meus sentimentos?
- Quando jogar com os sentimentos perderei, porque não sei dominá-los. Olha para a maneira louca como te amo, vê como sou o idiota que vou até ao fim do mundo por ti. Se fosse jogador ficava-me pelas palavras, a meio caminho. Mas eu não sou de ficar a meio, quando vou, vou até ao fim. O meu viver passa por viver-te, por amar-te, por ter-te e ser feliz.
A Telma abraçou-o de um modo tão apertado que quase sufocava o rapaz. Era o medo que ele lhe escapasse, era o agradecimento por tudo o que representava.
- Só tu para me conseguires sossegar. Amo-te.
- É isto que eu vejo em ti, um corpo recheado de alma, o reflexo do que sou.

2 comentários:

  1. Muito obrigado, Irene! Terei todo o gosto em recebê-la por cá! Será sempre bem-vinda!

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