terça-feira, 20 de maio de 2014

O sofá é o nosso céu

Estamos no sofá a ver televisão, as minhas séries favoritas, aquelas de intrigas, romances assolapados e de choros compulsivos. Sei que não fazem o teu género, sei que falta a emoção do golo e a masculinidade do desafio, mais ainda assim fazes questão de as ver comigo. O nosso sofá torna-se pequeno para tamanha salgalhada de corpos. Os meus pés, bem juntinhos, encaixam-se no meio dos teus. Sei que reclamas porque tenho os pés frios, sempre assim foi. Refilas porque te queres mexer e que, todo o calor corporal que sentias foi-se com o meu gélido tocar. Eu sorrio, aproveitando o ângulo morto. Sei que não me vês sorrir e adoro ouvir-te barafustar. Ralhas, refilas, dizes que te vais mudar e que esta será a última vez que me deixas estar assim. Mentira. Sei que tudo isso são ameaças em vão. Adoro quando te manifestas e ficas zangado, meio zangado, vá. Já lá vão anos de noites destas, de pés frios, de corpos enrolados e séries de televisão femininas. Sempre me fizeste todas as vontades e sei que estarás sempre aí, de pés, mãos e coração quente, à minha espera, para me aqueceres a alma e dares-me todo o teu calor. És a minha companhia, o meu programa favorito, do qual já sei todas as falas, todos os movimentos e ainda assim saboreio cada episódio. 
Viro-me para ti, ficamos frente a frente e vejo o teu sorriso, bem disfarçado por aquelas palavras ameaçadoras. Sorris tanto que é impossível ficar indiferente. Olho-te com toda a alegria que uma mulher pode sentir. Se o céu fosse um sofá, seria o nosso, seria este o nosso céu. É inexplicável a sensação que me dás, passados tantos anos, depois de tanto acontecimento. Quando a rotina nos traz os mesmos dias, as mesmas pessoas e os mesmos sentimentos, tu demonstras-me que a plenitude é isto: sentir-me feliz a cada acordar, sentir-me realizada a cada adormecer. Beijo-te repetidamente e mordo-te, sei o quanto ficas danado por te morder essa ponta do teu lábio. Queixas-te, dizes que te aleijei em demasia, a típica pieguice masculina. De seguida partes para cima de mim, abraças-me e eu perco-me nos teus braços. Posso fechar os olhos porque sei cada traço teu, vejo tudo com a maior nitidez, ainda que de olhos fechados. Escrevi este guião, sei tudo o que se segue. O sofá queixa-se de tanta volta dada mas tu pouco te importas. Eu aviso-te para teres cuidado, só para te espicaçar. De seguida fecho os olhos ao rir-me e mordo a língua. Quando voltar a abri-los sei que também te ris, que me atacarás o pescoço com uma sequência infindável de beijos e começarás a descontrolar-te. Eu começo a esbracejar mas gosto disso, tu sabes que sim. Prendo-te o tronco com as minhas pernas e cruzo-as nas tuas costas. A chave perfeita, a prova de que te quero para mim, apenas para mim. A televisão continuava ligada mas o seu som era abafado pelos nossos gemidos. Perdia o episódio da série preferida, mas ganhava o amor que todas as mulheres sonhavam ter. O sofá não teve coragem de se voltar a queixar, rendeu-se ao nosso amor. Eu, no auge do prazer falei, falei sem me aperceber, de forma espontânea e involuntária. Quando dei por mim já tinha falado, quando te olhei tu sorrias, de prazer e de amor. Disse o teu nome, disse que te amava. Só podia ter sido isso, era a única coisa que continha em mim. Só tu podias estar dentro de mim.

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