quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os 4 daquela mesa

Levaste-me a tua casa para um pequeno lanche em família. Aí estava o problema, a mão suava porque ia ver a tua família, ia conhecer quem te conhece melhor, ia ver quem não conheço e quem preferia não me conhecer. Agarraste-me pela mão e pediste-me calma. Estava suada por mais fundo que respirasse, tremia por mais seguro que estivesse. Entrei e fui apresentado, cumprimentei um a um todos os teus familiares. Sempre simpáticos o quanto baste e de sorriso ponderado, o suficiente para perceber a avaliação de cada olhar. Sei que é importante a primeira impressão, mas nunca fui destas coisas. As pessoas são o que são e só se dão a conhecer com o tempo. É o tempo que julga o carácter, é o tempo que traz as respostas.
Entrei com toda a delicadeza, ponderação e educação. Respondi a todas as perguntas, sobre tudo um pouco: quem sou, de onde sou, de quem sou filho e onde moro. O que faço, que pretendo para o futuro e onde te conheci. Por mais que me tenha preparado, acho que não consegui dizer com exactidão tudo o que queria. A língua enrolava, as palavras fugiam e a memória falhava. O meu olhar revelava o medo que se instalava dentro de mim. Eram as tuas deixas, os teus resumos e as tuas intervenções que me permitiam respirar e ganhar fôlego para uma nova ronda. Mas não eram as perguntas nem os julgamentos femininos que me importavam. Não fazia grande questão de agradar às tuas tias e primas. Pouco me importava se me achavam bonito, simpático ou interessante. O senhor da ponta da mesa, de olhar fulminante e de poucas palavras era o meu maior ouvinte, sentia-o tomar notas mentalmente, registando todos os meus passos, todos os meus olhares e todas as minhas intenções. Tu sabias disso e procuraste suavizar a situação ainda antes do confronto final. As pessoas foram saindo da mesa, seguindo com a sua vida normal e cochichando longe da minha presença. Ficámos os 4 à mesa. Os teus pais e tu, na mesa onde sempre partilharam as histórias da vida, onde sempre discutiram os problemas e festejaram as alegrias. E, de repente, ali estava eu, numa mesa nova, numa vida que não me pertencia e numa família que tinha de conquistar.
A tua mãe, sempre simpática, levantou-se, olhou-te e falou-te com os olhos. Coisas de mulheres, todos nós sabemos.
- Bem, vou levantar as coisas da mesa. Filha queres ajudar-me? - os olhos tornavam a frase imperativa. Não tinhas como negar e eu não tinha por onde escapar.
- Claro, mãe. - Respondeste de orelhas baixas e nervosa com a dimensão do que aí vinha.
- Eu também ajudo - respondi enquanto me preparava para levantar.
- Não, deixa-te estar, fica aqui comigo à mesa. Elas tratam disso - respondeu aquele homem de forma calma. A primeira vez que ouvi verdadeiramente a sua voz. As primeiras palavras dirigidas à minha pessoa. A sua voz era mais suave que o seu apertar de mão. Um bom sinal.
Olhei-te e fiquei à mesa. Tu riste-te e acenaste para eu ficar.
Naquele instante senti as pontas da mesa a unirem-se. A distância que nos separava era medida em respeito e aí sim, estávamos bem separados. Perguntou-me o que fazia e quais os meus planos. Percebi que queria ter certeza de tudo o que ouviu, testar a minha congruência. Respondi-lhe a verdade e a verdade é sempre a mesma. A conversa foi fluindo e eu ia ganhando confiança, a minha e a dele. Aquele senhor tinha todo o meu respeito, cuidou e educou a mulher que eu amo, deu-lhe todos os valores que eu admiro nela.
No fim da conversa, disse-me de modo sereno mas em tom de alerta:
- Ricardo, és o primeiro que eu conheço porque, no fundo, nunca pretendi sentar alguém à minha mesa.
Espero que percebas o quão especial é a minha filha e o quanto ela significa para nós, especialmente para mim. Se a tratares bem, tens em mim um amigo, se te portares mal verás em mim o teu pior inimigo. Caberá a ti escolher...
A mensagem foi esclarecedora e apresentada de uma maneira tão brilhante que só me mostrou o quanto o respeitava. Era um homem às direitas, a melhor referência masculina que a sua filha podia ter.
- Pode estar descansado. Sou o primeiro a sentar-me nesta mesa e serei o último namorado que você conheceu. Amo a nossa menina, tal como o senhor, cada um à sua maneira. Seremos os dois homens da vida dela. Mas primeiro sempre o senhor, pois será o único amor eterno.
Estendeu-me a mão e apertou-ma com toda a força que sentia. Doeu mas não me queixei, sabia que, desta vez, não era para intimidar, era força de orgulho e satisfação. Mais do que um cumprimento de homem,  era a honra, a honra das palavras e dos actos. Senti-me integrado, senti-me bem àquela mesa. Aquele lugar, outrora vago, passaria a ser o meu, aquela família outrora desconhecida, começava a ser a minha.
Chegaste com a tua mãe, na expectativa de saberem como correu. Olhaste-me como quem pergunta, a serenidade do meu rosto acalmou-te o coração. Agarrei-te a mão com toda a força que podia. Percebeste o meu sorriso e a minha mão já não escorregava. Estava seguro, estava tranquilo, estava completo.
Ali estávamos nós, os 4 àquela mesa, os 4 daquela casa.

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