quinta-feira, 22 de maio de 2014

Quando se joga sem medo de perder

"20.15 no restaurante chinês!". Era esta a mensagem que acabara de receber no meu telemóvel. Não reconheci o número, muito menos sabia quem tinha enviado tal ordem. Caí no ridículo da adolescência e perguntei quem era, sem o arrojo e descaramento de outros tempos. Procurei ser subtil e educado. Pouco depois o telemóvel toca e volto a receber mensagem. Era a resposta, pouco conclusiva, diga-se. "Sou aquela que tu adoravas levar a jantar e a beber um copo, antes de se perderem na noite". Confesso que aquilo estava a tornar-se desafiante, provocador e porque não excitante...sabia bem ser namorado e claramente era esse o intuito. Contudo, quando parava para pensar, assustava-me. Sim, esta ideia assustava-me. Não sabia quem era. Podia ser alguém que me atraísse ou não, alguém de quem gosto ou que odeio. Podia até ser um grupo de amigos a pregarem-me a vergonha da minha vida. Estava intrigado e procurava jogar pelo seguro. Passes curtos para não errar, atacar só pela certa. Atacar pela certa...sempre foi esse o meu problema, não avançar, não me expor ao risco e jogar ao sabor da sorte. Talvez fosse demasiado defensivo e acabasse por empatar, a minha vida e a da outra pessoa.
Resolvi (des)fazer a barba, tomar banho, escolher uma roupa digna da (eventual) ocasião e sair. Às 20 horas estava à porta do Restaurante Chinês. Esperei até às 20.20 horas, sempre de cabeça levantada, atento ao mais pequeno ruído e movimento. Passavam 5 minutos da hora marcada e nada. Não havia qualquer tipo de resposta à pergunta interior que me consumia. Quem era a pessoa daquelas mensagens...quem era a mulher que adorava levar a jantar? Ri-me da improbabilidade daquilo dar certo e preparei-me para abalar. Caí no embaraço da situação e preparei a retirada. Naquele instante levei a mão ao telemóvel que estava no bolso, para ver as horas. Tinha uma mensagem recebida que, pelo facto de estar no silêncio, não li. "Entra". Curta e seca. Entra... e tinha sido mandada há 5 minutos atrás. Fiquei baralhado com este jogo de suspense, não sabia se isto era um "P.s. i love you" se um "Saw". Era um jogo meio estranho e sentia-me desconfortável, mas esta sensação estranha despertava-me imensa adrenalina. Dei meia volta e entrei. Uma vez lá dentro, senti ter todo o restaurante a olhar-me enquanto tentava memorizar e reconhecer cada um daqueles rostos, à espera do encaixe visual. Quanto mais olhava menos via. Passei por uma mesa mesmo ao meu lado e alguém soltou umas palavras engraçadas:
- Se soubesse que este restaurante era frequentado por homens como este, era cliente habitual
Eu achei tanta piada àquela frase de engate que me esqueci de reconhecer a voz. Virei-me com vontade de rir. Soltei um sorriso charmoso o quanto baste e iria agradecer. Eras tu, a mulher misteriosa. Só podias ser tu.
- Ângela? Tudo bem? É contigo que venho jantar...?! - disse de forma tão surpresa que quase lhe tirei qualquer tipo de apetite.
- Só se quiseres. Eu terei todo o prazer em comer contigo - aquela mulher cuspia fogo, sensualidade e desejo.
Corei, senti o alcance das palavras e juro que os seus lábios e língua mexiam-se mais do que o habitual. Aquela mulher era fogo, a femme fatale que todos adoravam ter. Ela é a bomba da empresa, a solteirona por quem os homens suspiravam.
- Então com licença.
Sentei-me e deixei-me ficar a recuperar o fôlego, enquanto tapava o rosto com a ementa. Ela sabia que eu era meio acanhado, mas pouco lhe importava. Adorava o meu cavalheirismo, a minha maneira cordial e sincera de ser, bem como o meu humor. Não tinha grande à vontade sob pressão feminina, é verdade, mas aquela obra de arte esculpida a sensualidade sabia que mudaria isso em três tempos. 
Meti vinho tinto no meu copo e bebi um valente gole. Por dentro contorci-me com aquele sabor, não gostava, era espesso e amargo. Os apreciadores diziam que era o melhor. Por seu lado, a Ângela bebia como se fosse mel e os seus lábios marcavam-se com toda a perfeição no seu copo.
Ela sorriu e disse-me que preparou esta surpresa para me apanhar totalmente desprevenido, sem frases estipuladas, sem conversa feita. Sorri e disse-lhe que tinha valido a pena, pois conseguiu surpreender-me por completo. Pedi-lhe desculpa pela minha reacção  inicial e disse-lhe que estava linda.  Ela agradeceu de modo delicado, onde a língua servia de maestro para aquela boca. A sua voz era música para os meus ouvidos.
O jantar veio, a conversa fez-lhe companhia, regada com risos e descontracção. O ambiente começava a tornar-se mais íntimo e até o vinho deslizava melhor. Para ser sincero, já não lhe tomava o sabor, era líquido e chegava. Pedimos a conta e eu paguei. Fez-se de difícil, quis pagar e perante a minha constante recusa ainda sugeriu a divisão. Mas eu era o homem, aquele o nosso primeiro jantar e eu, grato por aquele bom momento, não podia levar isso em consideração. "Tu tiveste a ousadia da sugestão, eu o agradecimento da conta", disse-lhe sentenciando o assunto.
Saímos do restaurante em plena harmonia, ajudei-a a vestir o casaco e dei-lhe prioridade na hora de passar a porta. Riu-se, encantada com estes gestos, pouco usuais nos homens da sua vida. Eu não percebia o porquê da surpresa, tratava-se de educação, com atitudes de respeito e cavalheirismo. Enquanto ias à minha frente olhava-te por completo, com os olhos feridos de tamanho brilho. Eras a Marilyn Monroe dos tempos modernos, diferente de todas as outras da minha vida.
Partimos para a noite com o intuito da diversão. Confesso que a ideia de beber copos e shot`s não me alegrava, mas a companhia era melhor do que eu podia imaginar e só tinha de me deixar ir. Ela vibrava com aquela saída, sentia-se tão leve...leve de problemas, do peso do escritório, das responsabilidades da vida e dos problemas do mundo. Não havia espaço para falhanços, só diversão. Eras tu, solta de encargos, despojada de preconceitos. Bebemos um shot tão horrível que me fez dar todas as caretas possíveis e imagináveis. Foi para a pista de dança e puxou-me para dançar. Dançar... mais um problema! Não sei dançar, arrasto os pés como se fosse um pinguim e a anca não se dissocia do lado escolhido. Sorri e encolhi os ombros. Tu, Ângela, riste-te como se não houvesse amanhã, pois eras a melhor bailarina do espaço. Pouco importada com os outros, colaste o teu corpo ao meu e guiaste-me pelo ritmo da música. O segredo era não pensar, deixar-me ir. A melhor táctica para ganhar. No fundo, passado tanto tempo, estava a jogar para ganhar, não para não perder. Enquanto a música nos embalava meteste-me as mãos pelo pescoço. Olhaste-me intensamente, cegaste-me com esses olhos verdes. Eu segurei-te pela cintura, a medo, até perceber que a tua aceitação era tácita. Tomei a iniciativa de subir de patamar, de elevar o degrau da confiança. Beijei-te delicadamente. Rapidamente te entregaste e não mais voltámos ao andar debaixo. Bem pelo contrário, acabámos a noite no 4º andar, a minha casa.
De manhã acordei, olhei-te e vi-te a dormir ao meu lado, numa cama que há muito não tinha ninguém, a não ser eu. Sorri, lembrei-me de tudo o que fizemos e o que aconteceu para acabarmos aqui. Senti-me homem, de uma masculinidade tão elevada que mais parecia ter ganho a Liga dos Campeões (coisas de homem!). 
Acordaste e olhaste-me de forma ensonada, engraçada e descontraída. Pensei que te quisesses tapar, esconder, arranjar e sair. Pelo contrário, levantaste-te sem nada a tapar ou esconder, beijaste-me e desejaste-me bom dia. Beijaste-me novamente e foste fazer café. Sentias-te perfeita com a vida e eu não sabia o que a vida me esperava. Tudo estava tão calmo naquela casa. As paredes já não gritavam nomes perdidos no tempo...

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