sábado, 24 de maio de 2014

Um encanto de Cinderela

Ela arrumou o balde, a esfregona, a vassoura e a pá. Olhou à sua volta e o brilho era notório. O chão estava limpo, cheiroso e escorregadio. Típico de uma boa lavagem. Tirou o avental, a roupa imunda e despiu-se da pele de gata borralheira. O dia tirado para tratar da casa tinha acabado, agora era altura de viver o que ainda faltava. Dirigiu-se à banheira e tomou um longo banho de imersão, sabia-lhe tão bem estar ali, relaxada, massajada por aquela água quente e embalada pelos seus sons tranquilizantes. Fechou os olhos e assim ficou, bela e adormecida, durante meia hora. Acordou com o frio da água outrora quente. O seu corpo absorveu a baixa temperatura e pedia calor. Achou por bem sair e arranjar-se. A toalha envolveu-lhe o delineado corpo e dirigiu-se para o quarto. Agora era a tarefa mais complicada para qualquer mulher, mas a mais simples para ela: escolher o que vestir. Tirou a toalha enquanto dançava, ria-se como uma adolescente. Era algo tão habitual que não o conseguia deixar de fazer. Escolheu o seu vestido branco, o mais bonito que tinha., leve como a sua alma e condizente com o seu estado de espírito. Uma vez vestida, calçou a sua sandália também ela branca. Rasas, como tanto gostava. Adorava sentir o chão que pisava, não pretendia ser maior do que já era. A altura mede-se em carácter, não em palmos, e aí o carácter era só dela, sem plataformas para disfarçar. De seguida, olhou-se ao espelho e sorriu. Não havia maquilhagens, sombreados, pós de arroz ou outras técnicas de embelezamento. Era bonita assim, ao natural, ela sabia disso e naturalmente os outros também se apercebiam. Sorriu para o espelho e piscou-lhe o olho. Estava pronta para sair e aproveitar a noite que o sábado lhe oferecia.
A sua vida não era só trabalhar, tratar da casa e cozinhar. Ela, enquanto mulher dada a todos os lavores que a sua mãe e avó lhe ensinaram, dedicava-se a viver a vida que todos deviam viver. Sem exclusividade de sexos, afinal de contas, somos todos iguais. Chegou ao bar e pediu uma bebida. Uma margarita, para começar. De imediato um rapaz, bem vestido e seguro de si, aproximou-se. Parecia ser um galã, pomposo, armado em príncipe encantado, sem cavalo mas com toda a importância.
- Posso pagar a próxima?
Ela olhou-o e sorriu. O sorriso era um "esquece" silencioso, seguido de um olhar indiferente como quem diz "vai-te embora". Ele fez-se de despercebido e procurou continuar a aproximação. Até que ela  respondeu:
- Eu sou uma Cinderela, tu talvez um príncipe, mas não o meu. Para mim não tens nenhum encanto.
Ele engoliu em seco e encaixou a nega. Não era homem de muitas rejeições, mas talvez nunca tivesse encontrado uma Cinderela.
Ela bebeu e afastou-se do balcão, dirigiu-se à música e dançou, dançou até não mais parar. Passou a meia noite e veio a uma, duas e três da manhã. Às quatro da matina estava a entrar em casa. Tirou as sandálias e levou-as pela mão até sentar-se no sofá. De seguida, recostada, ergueu e olhou-as enquanto se ria.
- Duas sandálias, rasas. Vieram as duas. Nada ficou para trás.
A Cinderela estava em casa, às quatro da manhã, sem medo de abóboras ou feitiços, sem príncipe encantado e sem ter deixado para trás um sapato na expectativa de um encontro. Esta era a Cinderela dos tempos modernos, independente, sem viver na esperança  de que homem algum lhe traga a felicidade.
- O que sonho ser? Muita coisa, mas ser tudo isso sem dizer que quero ser feliz, é como se nada tivesse sentido.
E assim a Cinderela é feliz, vivendo a sua vida sem o veneno do beijo amaldiçoado.

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