domingo, 25 de maio de 2014

Vamos ser tudo o que não fomos, tudo o que sempre quisemos ser

"Luísa, espera!". Gritei por ti! Não esperaste, não ouviste e não te alcancei. Perdeste-te nos diversos caminhos daquela movimentada rua e o teu rosto era mais um, entre tantos. Não te via fazia 3 anos, mas nunca me esqueci de ti. Era impossível esquecer-te. A saudade aperta quando me lembro de todas as tardes de estudo, dos teus apontamentos sempre perfeitos, das tuas dúvidas antes dos exames e de toda a satisfação quando corrias de braços abertos, aos berros, na minha direcção, depois de cada avaliação exemplar, depois de cada obstáculo superado. E como podia eu esquecer aquela viagem que fizemos à volta de meia Europa? Um comboio lento, de carruagens velhas e imundas, mas decorado com histórias de diversas vidas, de cada canto do mundo. Velhos e bons tempos! Dormia contigo nos braços e achava-me imortal, dono do mundo, dono da felicidade, dono daquela velha Europa e de tudo o resto que haveríamos de conquistar. Lembro-me de todas as fotografias que tirámos naqueles sítios históricos, bem como de outros tantos momentos que ficaram por registar. Pensávamos ser intocáveis, inseparáveis. Afinal éramos como os demais, e as exigências da idade adulta estilhaçaram os nossos sonhos, quebraram os nossos laços. Tive de ir para fora, enfrentar a nossa Europa sozinho e aprender a ganhar dinheiro onde apenas imaginei gastá-lo. O estrangeiro já não era destino de Verão, sim um sacrifício anual. Conheci muita gente, muitas culturas, estilos e mentalidades. Vivi experiências que nunca pensei viver. Todavia, a nossa viagem foi a mais marcante. Era apenas eu e tu (um universo) contra o mundo. Tu e eu, esquecendo tudo o que nos rodeava, apagando o que pairava ao nosso redor. Hoje, 3 anos após a última vez que te vi, passas na mesma rua que eu, no nosso país, na nossa terra. Senti-me em casa, desenterrando tesouros que julgara perdidos. Desculpa ter partido e ter-te deixado para trás. Tinha de agarrar a oportunidade e tu quiseste agarrar-te à certeza da vida. Perdemos a nossa cumplicidade, o nosso amor e confiança. Em contrapartida, ganhámos distância, novos horizontes e vivências.
Hoje, vejo-te e estás bonita, como sempre foste. Não mudaste nada e nada perdeste com o tempo. Agora estou cá, a tempo inteiro, de corpo e alma, com ganas de ficar e de voltar a ser teu.
Se fores, não vás. Se ficares, fica comigo. Ainda vamos a tempo de ser o que não fomos. Podemos ser tudo o que sempre quisemos ser.

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