terça-feira, 24 de junho de 2014

E se eu desistir?

E se eu desistir? Tudo o que me apetece é pegar na vida, embrulhá-la bem embrulhada e jogá-la fora, por uma janela entreaberta, levando-a a cair numa estrada qualquer, ser atropelada por carros, pisada por sapatos apressados e rasgada por outras mãos que a queiram. Apetece-me dar sofrimento a uma vida na qual não me revejo. Desejo que perceba como me faz sofrer, devolver-lhe a dor e o sofrimento que merece. Mas esta atitude leva tudo o que sou. Sou a vida que tenho, as dificuldades que surgem e a (in)felicidade que carrego. E se eu desistir de mim, onde me hei de encontrar? Quem serei? Nada, ninguém, a não ser um cobarde. Nada mais que um fracasso do qual ninguém se orgulhará. Olho para a vida como se fosse a folha de papel amassada que tenho nas mãos. O que farei com ela? Nada nem ninguém me poderá responder. A vida não é feita para desistir, apenas para se viver. E se eu desistir de tudo nada mais me restará, ninguém dará por minha falta. Vou renunciar à ideia e ganhar coragem para viver. Talvez seja cobarde demais para desistir ou amorfo demais para continuar.
Estico a folha engelhada e leio tudo o que contém. É a vida que escrevi para me lembrar o que sou. E a vida não acaba ali. Pego numa nova folha em branco e enfrento o destino. Ainda há tanto para escrever que só tenho de me deixar ir. Uma nova vida me espera e só desiste quem não merece viver.

E saber viver é a maior dádiva que o homem sábio dispõe.

Sem comentários:

Enviar um comentário