quarta-feira, 4 de junho de 2014

Ele voou, ela andou. Ela seguiu, ele caiu

- O segredo é não olhares para trás. Achas que consegues?
- Vou tentar. Prometo que vou tentar.
- Não prometas que vais tentar. Diz-me que o vais fazer. Caso contrário, esquece...
- Ok, não vás. Eu prometo que o vou fazer.
- Assim tudo bem. Dá-me a mão e vê o nosso caminho. Não haverá curvas que nos parem.
- Calma, uma curva de cada vez, se faz favor. Pés bem assentes no chão...

Ele queria conquistar o mundo, levá-la pelo braço e fazê-la voar. Ela apenas queria alguém que lhe fizesse dar passos firmes, um de cada vez, devagar, sem pressas e de preferência sem curvas. Ele entregou-se de cabeça e voou, ela tinha medo e ficou. No fundo, um era céu, outro chão, um receoso o outro sonhador. O contraste dos dois era cada vez mais notório: ele voava livremente, sozinho. Ela ficava, propositadamente, sozinha. O caminho deixou de ser igual e as curvas apenas existiam para quem voava. Em Terra, a rota mudava e a distância aumentava. Estavam longe e destinados a não mais se tocarem. Seguiram o caminho da vida e quem caiu foi quem voou.

- Porque não resultou? Porque não sonhaste e acreditaste?
- Porque sou de dar passos curtos. Não de grandes voos.
- Se não tirares os pés do chão não voarás. E se não voares não amas.
- Cortaram-me as asas, um dia. O meu sítio é o chão.
- Eu não quero acabar como esse chão que pisas. Mereço ser feliz.

Ele lambeu as feridas da queda e resolveu começar a reconstruir as suas asas. Bastava encontrar a força de vontade que o fizesse regenerar. A vontade de ser feliz chegava-lhe para tirar os pés do chão. Ela era ferida passada e aberta, anestesiada pela vontade de desistir, pelo desejo de ficar. Ela era o chão que pisava e não passava disso. Ele tentou voar, ela seguiu em frente.
É bem mais fácil caminhar sobre o chão do que voar de novo. Mas não se compara a audácia de um com a cobardia do outro.

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