quarta-feira, 30 de julho de 2014

Apenas não te sei amar

Amo-te tanto que talvez não te saiba amar. Quando estou contigo bloqueio, não te sei dizer o quanto te quero, apenas ali fico, esperando que o percebas, aguardando que me o digas. Quando te beijo procuro que seja tão perfeito que nem o provo como queria. E quando falo, fico sempre aquém, nunca é o que verdadeiramente sinto e merecias ouvir. No fundo, não te sei amar porque te amo demais. Não aproveito o que somos porque me perco insistentemente no que devemos ser. E amar é não pensar, amar é dar a mão e deixar-se levar, voar sem ter asas, fugir sem sair do mesmo lugar. Amar é entregar o que somos, do jeito que somos. Se te amo? Não duvides. Apenas procuro - erradamente - a melhor maneira de te amar.

O primeiro concerto

Parece que foi ontem e já lá vão quatro anos. A música, o palco, o entusiasmo do público e tu. O fado, tão português, tão nosso, invadia o ambiente com a sua dor, com aquela palavra sentida e a saudade de algo que muitas vezes se tem. Mas naquele preciso momento senti-me sedento de ti e nenhum verso por mais perfeito que fosse conseguia dizer-te o que vinha cá dentro. Eras linda, a personificação de todas as musas que categoricamente se ouviam cantar. As violas envergonhavam-se perante ti e a voz da fadista, por mais esplendorosa que fosse, seria sempre tímida ao teu lado. Quando me falavas eu juro que tudo mais era silêncio e bastava um olhar para o meu coração desafinar, esquecer as letras e a saudade. O fado cantava o que sentia por ti, a simbiose perfeita entre o querer e o não ter. No espírito carregado de sentimento deste-me a mão e um amor. Ali nascemos. O meu fado és tu.


Aos meus amigos, Durval e Matilde!

terça-feira, 29 de julho de 2014

Eras tudo

O calendário marcava o dia 12 de Fevereiro e fazia 1 ano desde que ele se foi. Os lençóis quentes aqueciam-lhe a alma e os pés estavam gelados demais para caminhar ao desbarato. Ela não temia a morte, apenas ter de enfrentar cada novo dia. Tudo ficou sem cor desde que ele partiu. Fechou os olhos e imaginou-o ali, ao seu lado, onde deveria estar se a vida fosse justa e não pregasse rasteiras inesperadas. Ela nasceu para ser dele e ele sabia-o bem. Passou 4 anos a dar-lhe os motivos certos para a eternidade e não percebia o porquê de a vida lhe dar uma rasteira tão cruel capaz de lhe tirar todas as certezas. Agora viver é não ter motivo, não sentir, não gostar, não aproveitar e não desejar. Cada dia é mais um dia e o somatório de dias agoniza ainda mais aquela insuportável dor. Ela amava-o como sempre o amou, cada gesto, cada olhar, cada palavra. Abraçava a almofada como quem o abraça e cheirava-a como quem inala a última gota do seu perfume. De olhos fechados sentia a suavidade da sua pele. O dia fazia sentido, tudo fazia sentido quando ele vinha à lembrança. Quase jurava que o tempo parava e o coração adormecia a dor. 
Era meio dia e não queria sair da cama. Enfrentar o mundo era violento demais, logo agora que ele já não estava mais ali. Deixou-se ficar no sítio onde sempre estiveram mais próximos: a cama. Ali sempre foram um só, os corpos uniam-se e as almas tocavam-se. Naquele sítio gemia de prazer e ele sugava-lhe todo o desejo. Sempre se sentiu bem ali, sempre foram perfeitos os dois. Permaneceu de olhos fechados e sonhou com ele, dormiu mais umas horas, entre desejos e suspiros, entre o sonho e a realidade. Ele era o seu sonho e tudo o que ela queria. A realidade era a merda da vida.
O relógio marcava 15 horas quando o telemóvel tocou. Era a sua mãe determinada em encontrar justificação para a sua ausência prolongada. Há muito que a casa de sempre ficou para trás. Fazia cerca de 5 anos desde que tinha deixado a sua residência familiar para construir e decorar a sua própria casa, mais modesta, pequena e moderna. Lembra-se como se fosse hoje do dia em que decidiu sair, dos medos que enfrentava e das dúvidas que os seus pais colocavam. Não a achavam suficientemente capaz de arcar com o desafio, mas era uma mulher, tinha 20 anos e todos os motivos para querer ser livre. Conheceu-o um ano depois, aos 21, quando um amigo apresentou-os no bar. A química sentiu-se e ficaram a falar até mais não, sendo praticamente arrastados para permitirem o fecho do estabelecimento. Ele falava-lhe com toda a força interior que um homem pode ter, ela ouvia-o com a atenção de um coração. O coração apoderou-se dela logo ali, naquela noite, e nunca mais a deixou pronunciar-se. Ele falou-lhe para o peito, contando-lhe o que ela não percebia, falando-lhe um dialecto que ela não sabia traduzir. Falava-lhe de amor, de dor, da mágoa, do querer e não ter, do ser e não ser. Ela olhava-o e acenava com a cabeça. Não percebia nem metade, mas era ele... Ele tinha 29 anos, era escritor e tinha-se perdido numa história da qual não sabia escrever. Tinha amado mais do que devia, tinha caído na encruzilhada da vida e não conseguia soltar-se da dor. Falava com tanto sofrimento que ela jurava ser capaz de senti-lo. Disse-lhe que amou dos pés à cabeça, o seu maior erro. - Um homem deve apenas amar da cintura para baixo - Disse-lhe. - Quando se ama uma mulher dos pés à cabeça, está-se a construir a própria sepultura. A mulher não pode sentir que tem o homem na mão, nunca! Se ela se achar dona do destino, do dela e do dele, o homem estará morto e nada mais lhe resta. O peito de um homem nunca se entrega, é tudo o que lhe resta...
Todas as vezes que se lembrava de como o conheceu, lembrava-se destas palavras. Ainda a faziam rir, tanto tempo depois. As filosofias baratas de quem está numa sexta-feira à noite num bar, bebendo memórias e partilhando lamentos. As palavras sofredoras de um escritor mergulhado em paixão. Logo ele, habituado a romances assolapados, a intrigas amorosas e a confusões sentimentais. Como ele disse, uma coisa é sentir com a caneta, outra é sentir com o coração. Ele era misterioso, vivido, trazia a dor de outros amores, a experiência de outros peitos e o gosto de outros lábios. Ele tinha sido provado por outras mulheres e ela começou ali a sentir-se desejosa para o ter. Logo ela, um ser alheado de afectos, louca pela sua carreira e sem espaço para planos bilaterais. Um dia prometeu não entregar-se ao desbarato, hoje luta diariamente pela sua libertação.
Estava deitada na sua cama, o seu porto de abrigo, perguntando o porquê de tanta volta, de tanto amor. Simplesmente o porquê dele. Recordava o seu jeito, a sua voz, o seu toque e a resposta era óbvia. Era ele... era tudo.

O amor tem de ser imperfeito

Podia escrever-te para perguntar como estás, quem és, o que és e no que te tornaste. Amei-te, vivi-te, respirei-te e julguei conhecer-te como ninguém. Penso que nem tu própria te conhecias. Hoje és uma estranha com quem tive o privilégio de partilhar a vida, um mundo que passa por mim como um planeta distante. Quem sou? Continuo a ser teu satélite, continuo a girar em torno de ti. Não te tenho mas as lembranças tornam-te presente, reflectem o teu rosto e o teu jeito de ser. O que nos aconteceu? Talvez tenhamos olhado para direcções opostas e, quando tentámos corrigir, não nos conhecemos. O que vivemos? Amor, do mais perfeito que podemos experimentar. Mas um amor, para ser amor, tem de ser imperfeito, tem de ter espaços por preencher, lacunas que nos fazem querer lutar por mais e melhor. Quando chegámos, ficámos, e o amor não foi feito para chegar, muito menos para ficar. Amor é incerteza, amar é correr atrás. Na nossa estúpida perfeição perdemos o amor, os laços e pior que tudo, não devolvemos nada um ao outro. Largámos os restos ao vento, na esperança de cada um recolher os seus destroços. E um amor assim desfaz-se em mil pedaços, fragmenta-se em estilhaços tão letais que cravam a pele e chegam aos ossos. Ainda hoje te sinto em cada músculo, ainda me fazes levantar e viver, tu, que me prendeste movimentos, que mutilaste o meu peito.
Escrevo porque te recordei, porque senti vontade de dizer que te amei e que te guardo. Pena o amor não ser eterno, a sua maior imperfeição...

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O amor mata

Posso dar um conselho? Não ames. Pode parecer estapafúrdio, irracional e ridículo mas é o melhor conselho que te posso dar. Porque não deves amar? Porque amar dá vida e prazer, mas também o tira e...mata! Amar mata. Quando sentires o coração bombear sangue a um ritmo descomunal, quando sentires as tuas veias a dilatarem, o teu ritmo cardíaco disparar e as palavras não saírem como pretendes, pára! Estás a entregar-te ao amor, estás a deixar-te vencer. Lembra-te do tabaco e dos seus maços: "Fumar prejudica gravemente a saúde", "Fumar mata". E o amor, não é igual? Que torna o coração cada vez maior até chegar ao ponto de trabalhar em esforço? E no fim de provares todo o amor, quando ele acabar, sentirás a náusea da sua ausência, o enjoo diário a tudo o que te rodeia e a ressaca daquele estado de espírito que não tens?! Aí o coração fica pequeno, mirra, esvazia-se de conteúdo e tu de sentimentos. Perdes os sentidos, pois sem amor sentir não vale a pena. Não queiras amar, não te entregues, amar é bom demais para morrer assim. Passa ao lado, finge, desvia-te, brinca ao amor, mas não caias nas suas garras. Se morreres de amor morres como um verdadeiro idiota. Se morreres de amor morres com uma ferida no peito que teima em queimar, que demora a propagar-se e a adormecer-te em dor. Morrer de amor é ser assassinado sob a forma de suicídio. 

Não te esqueças, o amor mata.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Só te sei sentir

Passaram anos, histórias, amor e desamor por nós. O sol nasceu, pôs-se, brilhou e escondeu-se dias sem fim. O mundo girou lentamente, mas o calendário mostrou o quão lentos fomos a viver em desencontro. Uma imensidão de vida separa-nos, mas um enorme laço nos une. Não te sei explicar o que é isto que sinto, mas sei que se tentasse explicar não irias perceber. Não perceberias porque só assim, sem palavras certas e precisas nos entendemos. Há coisas que não se explicam, apenas se sentem e eu só o senti contigo (apenas tu, juro que não te escolhi). Ensinaste-me isso com o tempo, o mesmo que me fez viver um mundo e manter-te cá dentro. Gosto de falar contigo, mesmo sem saber o que te dizer. Adoro ler o teu nome, reencontrar-me na tua lembrança. És a paz que trago em mim, a segurança que me deste. E em longo silêncio termino, sem conseguir explicar o que és. Porque escrevo? Talvez para recordar-te. Sim, foi por isso, o teu nome paira na minha mente e sinto-me nostalgicamente vivo. Onde quer que estejas, o teu pôr do sol será igual ao meu.
Obrigado por seres o que só nós dois sabemos. Sei que sabes, ainda que só te saiba sentir.

(e sentir-te presente vale por mil textos)

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O soldado da vida.

A vida é uma guerra. Não duvides disso, nunca. Olhas-te ao espelho e vês-te sem capacete, arma ou armadura. És um soldado raso ao qual a vida trata de dar batalhas duras e destruidoras. Bem-vindo à vida. À guerra, melhor dizendo. A guerra vem de onde menos se espera, quando menos se espera e de quem pensas ser aliado. Só assim se justifica dares o peito às balas, enfrentares um mundo em chamas e resgatares os teus ideais. Não penses que a guerra acaba de um dia para o outro, apenas com uma frase ou um mero acto. O fogo teima em não cessar, os destroços levam o seu tempo a serem retirados do campo de batalha e as feridas custam a sarar. Enquanto tiveres coração sentirás medo. Quem vai à guerra não sai incólume, sem marcas, cicatrizes, sangue ou mutilações. A marca indelével que nem o tempo apaga. Ela preenche páginas da tua história e dá-te lições para a vida.
Quem faz guerra e sai ileso tem um nome e não é soldado. O soldado luta pela paz que tanto lhe custou a ganhar. E se a paz que conquistaste foi tirada, vai, luta, predispõe-te a dar a vida por ela. Um dia hás-de ganhar. Mas lembra-te, a guerra não acaba calmamente. Os fantasmas recusam-se a desaparecer e as vozes que se ouvem teimam em não se calar. Quem luta, resiste e sobrevive é herói, o oposto de quem tira a paz repentinamente. E na guerra, como na vida, quem mata pelas costas é cobarde.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

A rua

Sentei-me nos degraus da rua só para te ver passar. Sei que não querias perceber o que ali fazia, muito menos saber quem sou, mas tinha vindo para ouvir os teus passos, para sentir o teu perfume e ver o teu sol. Se esta rua tem nome, de certeza que é o teu. Degrau a degrau vou suspirando por ti, por entre a calçada irregular e a rua estreita sigo os teus passos. Por onde vais, onde me levas? Não sei, mas vou contigo. No fim saberemos onde estamos, talvez consigamos dizer quem somos. Contigo nunca me sinto perdido. Esta rua é tua e não saberia viver noutro lugar.
Sempre guardamos alguém na memória, alguém que está na frase, na palavra, nas reticências ou no ponto final. Todos temos uma vírgula mal colocada, capaz de roubar sentido à história. Faz parte da vida ter esse alguém. E o alguém que nos invade constantemente a memória é o verdadeiro sinal de pontuação. Estou aqui! - exclama ela. Porque perduras? A minha eterna interrogação.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Quando parece que não tem volta, ela vai e volta, fica e reclama. E quando parece que não é igual, ela traz o inesperado, faz esquecer o passado e demonstra o que somos. Sempre que cansamos de estar, ela muda personagens, traz novas músicas e imagens, dá-nos razões para gostar. E quando pensas que acabou, ouves o coração bater descompassado, suspiras triste para o lado e recordas quem tanto lutou.
E a isto se chama viver, com amor e desventura, sem amor mas com bravura, não sentir é morrer. 

sábado, 19 de julho de 2014

A jura

Um dia pediste-me a eternidade. Lembro-me como se fosse hoje, sem enganos, traições ou desilusões. Pediste-me presença, somente amor. Mas amor sempre me pareceu um pouco demais. Ninguém tem o direito de pedir amor a alguém, é pedir uma imensidão. Temos direito a que nos amem, nunca exigir amor. Fizeste-me jurar que nunca te trocaria e que estaria sempre lá, quando a chuva viesse, quando o frio apertasse, quando a solidão teimasse em não partir. Prometi-te tudo isto e muito mais, sem medo, sem a menor dúvida, só amor. A pés juntos afirmei que jamais te livrarias de mim. É irónico, não é? Quem mais jura, mais mente e a sabedoria está em quem nunca jurou. Será que sente? Será que mente? Não se sabe, nunca falou...

quarta-feira, 16 de julho de 2014


És lixo, eu sou entulho
somos dois restos do que sobrou,
se for teu não farei barulho,
tenho vergonha de quem te amou.

E todos os pedaços em que me desfizeste,
todo o sangue que jorrou,
são palavras que não disseste, 
são derrotas de quem não jogou.

E a dor vai, a dor retorna,
num turbilhão de sensações,
Sou pedra dura e tu água morna,
somos um rio de frustrações.

No fim não estás, nunca estiveste, 
foste o quê? Eu já nem sei.
A mão que tirou, hoje veste,
esse vestido que te dei

terça-feira, 15 de julho de 2014

- Acreditas no destino? Nos milagres da vida que nos fazem duvidar de que somos nós os donos do nosso caminho?
- Não. Hoje não. Não acredito em nada mais do que aquilo que vejo ou toco.
- Como és capaz de dizer uma coisa dessas? Sentes isso?
- Já nem no que sinto acredito. Hoje não acredito em nada nem em ninguém.
- Como assim? Há tanta vida lá fora...
- Mas não há nada cá dentro. E o vazio que sinto engole tudo o que me podem dar.
- Tu não eras assim...
- Se o tivesse sido, talvez agora não estivesse assim.
- Qual é o teu problema?
- Não ter solução.
- És um quebra-cabeças...
- Deveria ter sido um quebra-corações.
- Desisto, hoje não és boa companhia.
- Volta amanhã e talvez consiga ser tudo aquilo que queres.

Ela amava-o por todo o mistério em que ele se envolvia. Adorava isso nele, o suspense de cada novo dia e a imprevisibilidade de cada acto. O pior de tudo era não saber de nada disso, nem tampouco se preocupar em perceber o que revelava. Naquele momento representava muito e pouco, tudo e nada, uma mão cheia de areia que lhe escapava por entre os dedos. Mas ela só tinha de ser forte e paciente, apenas teria de estar lá quando as nuvens negras passassem e o sol voltasse. Ele valeria o esforço, e ninguém ficará incompleto a vida inteira quando somos feitos de lados. O esquerdo ou o direito, o de dentro ou o de fora, o certo ou o errado, não interessa, ela apenas sentia que lhe pertencia e que o completaria, desde que no fim fosse (a)o seu lado. E ela ficava porque acreditava nele, ainda que ele não sentisse nem acreditasse.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Revisitar o passado

Sentou-se no chão do quarto, no lado da sua metade da cama, agora vazia. Abriu a segunda gaveta da mesinha de cabeceira e tirou de lá todas as fotografias, todas as cartas que escreveram, todos os papéis idiotas que trocaram. Aquelas frases eram eternas e aquelas palavras eram memórias de algo que viveu. Mas todos os versos eram lidos no passado. Nada ficou, só ela restou. Ela amava-o, o seu peito era dele e não tinha como o negar. Lia cada palavra que ele lhe tinha escrito e sentia-a no coração, sentia-a nos lábios, ouvia-a sob a forma da sua voz e passava os seus dedos pela tinta seca para sentir a sua presença. Tudo o que ela é, foi construído a dois, tudo o que sonhou ser estava destinado a ser com ele. Não havia maneira de esquecer o que viveu, e viver sem ele é não ter peito, não ter alma, não ter sossego. Bastava que ele dissesse que sentia saudades, bastava ele dizer-lhe que sentia a sua falta. Só ele tinha a chaves da sua mente, só ele podia entrar no seu peito. Dentro de si, só ele, nada mais. Com ele em si nunca se sentia só, sem ele tudo o resto perdia a cor, era inútil.
- Sinto a tua falta, preciso de ti. Não sei o que é viver sem ti, sem nós. Quando voltares, entra devagarinho. Se estiver a dormir, deita-te e enrosca-te a mim. Um amo-te chega, sem desculpas, sem mil perdões. Um amo-te chega e tudo fará sentido. Tu chegas-me e nem o amo-te é preciso. Apenas fica aqui, perto de mim.
Limpou as lágrimas e voltou a arrumar aquelas marcas do passado na gaveta. Fechou-a à chave e fez de conta que não a abriu. Mas mais do que uma gaveta, abriu a alma, desabou a tempestade que guardava dentro de si. Uma vez por semana fazia isso, sentava-se ali e revisitava o passado. Sabia-lhe bem voltar atrás, sabia-lhe bem lembrar-se de que foi feliz. Levantou-se e apagou a luz do quarto. Tudo escuro, como o seu coração. A vida estava de volta.

Ao som do coração

Capítulo 10


O seu carro estava à porta de casa de Leonor e a tranquilidade do prédio contrastava com todo o seu nervosismo. Ele tinha viajado sem parar para procurá-la, para enfrentá-la e fazê-la tremer. Lourenço era um "menino" de Cascais, dono de um porte físico bastante significativo e de um bronze de fazer inveja. Mas o que o destacava dos outros era todo o luxo que ostentava. O BMW topo de gama, o Rolex de ouro e as roupas caras. Deixando de lado a superficialidade, não passava de um homem possessivo, mimado e intolerante à rejeição. Tinha perdido Leonor há ano e meio, com quem namorou 3. Se ao início tinha tudo para ser perfeito, com o tempo vieram ao de cima as suas imperfeições de carácter. A agressividade com que lhe falava, a incompreensão que apresentava quando ela não lhe fazia as vontades e a impaciência que revelava tornaram aquele namoro uma bomba relógio. E acabou por explodir. Agora ele estava à sua porta. Não se contentava com telefonemas a meio da noite ou mensagens diárias. Não, ela namorava e ele sabia que havia outra pessoa na vida de Leonor capaz de a fazer feliz como ele não conseguiu. Tal ideia não o deixava descansar, não por amar Leonor loucamente, apenas porque era louco o suficiente para recusar-se a aceitar que perdeu.A sua loucura deu-lhe forças para esperar uma manhã inteira por ela. Foi perto das 13 horas que a viu entrar. Saiu do carro rapidamente e meteu-lhe a mão no ombro

- Leonor, amor?
Ela arrepiou-se quando ouviu aquela voz. Não que a desejasse, não que o seu coração ainda pedisse para ouvi-la. Apenas porque aquela voz representava medo, trazia lembranças infelizes que o tempo teima não esquecer.
- Desaparece, Lourenço. Para quê isto? Não temos nada para falar.
- Temos sim, amor. Sei que resolveremos tudo - enquanto lhe passava os dedos pela franja meia desalinhada.
- Não. O que existiu entre nós morreu, mataste qualquer amor que senti por ti.
- Não digas isso, não te atrevas. Eu vejo como me amas, como me olhas, como me desejas. Volta para mim.
- Pára! Eu estou feliz com o Guilherme, é com ele que estou e quero continuar a estar.
- Eu mato esse cabrão! Juro! Se ele acha que pode tirar-te de mim está muito enganado! E tu, sempre soube, não és de confiança - estava a revelar-se o Lourenço que Leonor temia. Uma autêntica besta que desfaz qualquer afecto.
- Não sejas estúpido. Chega! Chega!!! ACABOU!

Naquele instante ele agarrou-lhe o braço e tentou força-la a beija-lo. Estava descontrolado, fora de si. Um papel de derrotado do mais agressivo que possa existir. Leonor chorava de dor, vergonha, desespero aflição e medo. Naquele instante chega Guilherme, apanhado totalmente de surpresa com aquela cena no mínimo desagradável.

- Que se passa aqui, Leonor? Quem é este sujeito? - correndo imediatamente para aquela confusão, largando-a daqueles braços ameaçadores.
- Quem é este Leonor? É o teu amiguinho? Este paneleirote que não tem onde cair morto?
- Já percebi quem tu és. Sai, vai embora. Já não tens nada aqui. Tudo o que ela quer só eu lhe posso dar. Tudo o que ela precisa é o que não tens. Vai-te embora, garoto!

 Aquela frase não caiu bem em Lourenço que decidiu tirar de esforço de Guilherme e trocaram empurrões. Foram separados por Leonor e pelo vizinho debaixo que ia a entrar naquele instante. A porta fechou-se e o casal ficou do lado de dentro, perante o olhar atento do ex-namorado ciumento.
Ela chorou a tarde inteira. As pernas tremeram-lhe e a voz faltava-lhe.

- Desculpa Gui! Que vergonha! Ele é um anormal e tu não merecias nada disto! - soluçava e as lágrimas escorriam-lhe cara abaixo. Custava-lhe imenso enfrentar a vergonha do passado.
- Não peças desculpa, não tens culpa de ele ser um anormal. E agora estás nos meus braços, comigo, sempre segura.
- Amo-te! - Disse-lhe a palavra mais poderosa do universo enquanto o olhava seriamente

Ele beijou-a. Não sabia o que lhe dizer. Não sabia se a amava, talvez sim, mas dizer amo-te é dar o máximo que se tem e expor-se ao risco, depositando todas as fragilidades no peito de alguém. Ele só disse amo-te a uma pessoa e não estava disposto a dizê-lo a mais ninguém, para já. Abraçou-a como quem abraça o mundo. O seu regaço era dela, só dela. Enquanto procurava esquecer o momento pensou nos problemas da vida: Sónia e Lourenço, duas marcas da mesma dor. Respirou fundo, beijou a testa de Leonor e disse-lhe que amanhã tudo estaria bem. Não a podia deixar sozinha e passou ali a noite, lado a lado, como um casal tem de ser, forte, juntos, mesmo que um esteja a cambalear.


  Capítulo 11


 Os dois viveram meses de músicas, ensaios, passeios de bicicleta, caminhadas, serões românticos e lençóis molhados. A vida de Leonor tinha mudado, para melhor. Agora tinha mais um desafio pela frente. Motivada pelo incentivo de Guilherme, voltou a estudar, estava disposta a encontrar tempo e forças para acabar o que lhe faltava do curso de Psicologia. Mais, o bar onde cantava passou a ser dela. Um investimento grande mas as paixões são assim, enormes, cheias de sonhos, planos e objectivos a superar. Já Guilherme continuava com a mesma vida do costume, rodeado de livros, problemas, clientes desesperados, sentenças incompreensíveis e recursos urgentes. O trabalho era uma dor de cabeça e não havia mãos que chegassem. Mas o seu patrão confiava cada vez mais nele, na sua capacidade de sofrimento e no altruísmo que demonstrava. Os meses passaram de tal maneira que hoje faziam um ano de namoro. Um ano, 12 meses, 365 dias. Um ano é pouco, irrisório comparado com o que ficou para trás, mas um ano é o primeiro, o começo de tudo, o ponto de partida para algo mais. O tempo, esse tinha voado. Ele recebeu-a em sua casa, agora viviam juntos e partilhavam o mesmo espaço. Mas este primeiro aniversário precisava de uma ocasião especial. Guilherme era um romântico e não gostava de se esquecer de datas importantes, nem tampouco banalizá-las na ignorância do esquecimento. Reservou mesa no restaurante preferido de Leonor, o Restaurante Italiano. De seguida iam ver um filme e acabavam a noite a ver o mar. Ela não sabia o que iria acontecer, ele tinha tudo planeado.Jantaram uma pasta verdadeiramente bem preparada ao som de Laura Pausini e o vinho escorria levemente. Ela estava feliz. Sabia que ele sentia de verdade, era verdadeiro quando a olhava como quem lhe promete a eternidade, era genuíno quando a beijava e abraçava, quando tirava a camisola para lha dar, ou quando trocava de lado à beira da estrada para ser ele a ir perto dos carros. Ele mimava-a de todas as maneiras que sabia e não tinha vergonha de o fazer. Ela sentia-se feliz em cada gesto de amor, em cada atitude exemplar que ele tomava. Como poderia uma mulher ignorar tamanhos cuidados? No fundo, por muito que se façam de fortes, gostam de ter alguém que olhe por elas e se entregue de corpo e alma. Ele estava a mostrar-lhe o lado de lá do mundo. O lado correcto do mesmo.
Saíram do jantar e foram ao cinema, ver uma comédia romântica, o ideal para se rirem e sentirem a boa sensação de ser amado. Mas como se não bastasse, assim que o cinema acabou ele levou-a a ver o mar. Pararam o carro e escutaram o barulho das ondas. Era perfeito, a noite perfeita. Namoraram um pouco, com a paixão ardente que ainda revelavam. A noite tinha sido óptima mas melhor ficara quando ele olhou-a nos olhos e mexeu os lábios lentamente

- Amo-te, Leonor.
Ela não sabia o que dizer. Corou, ficou boquiaberta e apenas se lembrou de lhe pedir para repetir
- Amo-te, Leonor! Amo-te!
- A sério? De verdade?
- Ninguém ama a brincar. Amar é o topo e contigo sinto-me bem lá no alto. Não tenho como não te amar.


Ela atirou-se ao seu pescoço e abraçou-o enquanto o enchia de beijos. Ele era perfeito e ela não tinha como lhe mostrar o quanto simbolizava. Na verdade, desde pequena sonhou em ter um homem assim, correcto, justo, sensato, amigo e presente. Todavia, a sua vida e as suas decisões levaram-na a desacreditar-se, chegando mesmo a pensar que o homem não passava de um rude ser imperfeito. Pois bem, enganou-se, e quando menos acreditava, de onde menos esperava, ele veio e deu sentido a tudo. E ele sentia-se curado, como se as suas feridas tivessem fechado e o sangue estancado. Ele olhava-a e via a perfeição, cada vez mais sua, entregando-se, cada vez mais seu. Era ela, só podia ser ela. E lá estava ele, de novo nas garras do amor.

E quando a música embala o peito, não há como passar-lhe ao lado. Sente-se, canta-se o que o outro ouve, e em sintonia ouve-se o seu cantar que se confunde com a nossa voz. Há sintonia no amor, e quando a música deixa de ser apreciada, o amor morreu. A vida de Guilherme teve essa particularidade, perdeu a música de uma vida, mas ganhou a mulher para uma vida através da música. Ele não a procurou, tropeçou nela, encontraram-se num acaso melódico digno de uma história de amor. Assim se constrói a felicidade, um passo de cada vez, ao som do coração, ao som do amor.


Fim.

Ao som do coração

Capítulo 8


Guilherme e Leonor viviam nas nuvens. As suas personalidades não se tinham mitigado e a privacidade de ambos era religiosamente aceite. Continuavam a fazer as suas vidas com a maior normalidade. Trabalhavam, viviam nas suas casas e continuavam a ter tempo para as suas pequenas rotinas. Mas sempre que podiam procuravam estar juntos e esse bocado era o melhor do dia. Sempre que podiam dormiam juntos, ora na casa de um, ora na casa de outro. As noites de música lá no bar tornaram-se banais e ele continuou a ser o seu maior fã. Todas as noites estava lá e ela fazia questão de demonstrar ao mundo inteiro que ele era o seu homem. Mas 4 meses e meio depois do começo da relação e de toda a cidade começar a reconhecê-los como casal, o telefone de Guilherme toca, dando a conhecer um número que há muito não era visto. Era a Sónia a ligar. A Sónia... as borboletas no estômago estavam lá, nunca tinham saído, apenas não voavam com a mesma intensidade. Ele não atendeu, não podia permitir que ela lhe voltasse a estragar o momento de felicidade. Ela era pródiga nisso. Após o telefonema, em vão, recebe uma mensagem:


 "Olá Gui. Espero que esteja tudo bem contigo. Podemos falar? Temos muito para contar. Beijinho"


Ele não sabia o que responder. Esperou noites a fio por aquilo, procurou-a dia após dia, implorando-lhe uma conversa. Agora, quando tudo parecia ter ficado resolvido, ela aparece pedindo o que recusava. O melhor era deixar para lá, ignorar. Ela já nem estava na cidade, já não tinha nada que a prendesse ali... 
Foi ter com Leonor para almoçar, só ela merecia a atenção e a completude do amor. Se sentia amor pelas duas? Não, não se amam duas mulheres, sob pena de não se amar nenhuma. Por Leonor ainda não era amor, mas com o tempo não tinha dúvidas de que o seria. Quanto a Sónia, já não o era. Ela fez com que todo o amor que sentiu tivesse sido libertado em sofrimento. Agora é mistura de nostalgia com arrependimento. 
Mas o destino tem destas coisas, nesse mesmo dia, ao final da tarde, enquanto fazia as compras que Leonor lhe tinha pedido, Guilherme esbarra em Sónia no corredor das bebidas. Apeteceu-lhe fugir, esconder-se ou pegar numa garrafa de água ardente e bebê-la de seguida, até ao fim. Ela deu-lhe um sorriso sentido, aquele que o derreteu durante anos.


- Olá Guilherme
- Olá.- o olá era seco não por intenção, apenas pela estranheza do momento. Com ela sempre foi assim, sempre ficou sem palavras, sem coordenação, sem qualquer segurança.
- Eu tentei falar contigo hoje e é curioso encontrar-te precisamente neste dia, tanto tempo depois.
- Sim, vi mais tarde que me tinhas ligado e deixaste mensagem. Está tudo bem?
- Sim, está... quer dizer, vai-se andado. A vida talvez não passe disso, de um ir andando constante.
- Sim, talvez seja isso - a vontade de Guilherme era ter-lhe dito que a vida para ela deveria ser sempre assim, um ir andando, longe dele.
- Então e tu? Como estás? Sei que não mereço saber da tua vida, logo eu que tanto mal te fiz
- Deixa para lá, fizeste-me mal sim, mas também me fizeste crescer...
- Já vou tarde para pedir-te desculpas?
- Nunca é tarde. Mas agora não preciso delas. Sinto-me feliz
- Sim, já sei. Regressei ontem à nossa cidade e a Liliana disse-me que estavas a reencontrar-te. Já tens alguém não é? Parece sério...
- Sim, espero que seja sério, mas nunca se sabe o que nos reserva o amanhã...
Ela sentiu o alcance das palavras e engoliu em seco. Uma capacidade que ele sempre teve, dar recados camuflados mas que espetam como agulhas.
- Mereço tudo. Mas queria mesmo era o teu perdão e dizer-te que fui parva. É pena não dar para voltar atrás no tempo e dar valor a quem nos merece.
- Não não foste, seguiste com a tua vida e estás feliz, com outra pessoa e outra maneira de viver.
- Não deu. Foi uma confusão de sentimentos, acabou em ilusão. Agora estou de volta, estou a trabalhar na "SóMáquinas", liderando a equipa de engenheiros químicos. Ou seja, estou de volta à terra que nos viu crescer.

Aquela era provavelmente a pior notícia que podia receber. Sonhou com esta fraqueza durante muito tempo mas nunca pretendeu vê-la implorar algo. Ela podia mexer com os seus sentimentos de uma maneira peculiar e ele tinha medo de demonstrar essa fragilidade. Logo agora que estava no rumo certo. A vida dá cada volta... e ele tinha de ser firme sob pena de descarrilar.
- Bem, lamento. A vida é madrasta e as suas rasteiras tocam a todos. Até um dia Sónia. Felicidades.


Fugiu a beijos de despedida, a explicações ou novos olhares trocados em sentimento. Ela era o seu passado e simbolizava tudo o que o fez tornar-se o homem que é. Deu-lhe tanto que agora o nada era tudo o que restava. Fez o resto das compras com a cabeça perdida, um turbilhão de emoções. Precisava de regressar para os braços de quem realmente lhe quer bem, a Leonor. E ela não merecia um passo em falso.




Capítulo 9


Passaram-se 6 meses desde o início do namoro. Leonor tinha de ir ver a sua avó a Lisboa, estava doente e após a morte do seu filho não mais recuperou. A neta era tudo o que lhe restava, depois da perda precoce dos homens da sua vida. O seu marido morreu aos 30 anos, por uma doença qualquer que ninguém soube com exactidão. Eram outros tempos, em que se morria sem dar valor ao que nos levava. Por seu lado, o seu filho morreu aos 47 anos, de acidente de automóvel, quando se preparava para ir buscar Leonor à escola. Uma vida de tragédias de quem sempre tudo fez para viver em paz. Agora, com a sua neta longe de si, vivia num lar simpático, onde preenchia os seus dias em conversas com gente da sua idade, passeios seniores, programas de televisão e longas sestas. Os seus 82 anos reflectiam-se no andar cambaleante, nos pequenos passos e nas rugas que lhe invadiam o rosto. Os ossos eram frágeis mas o seu espírito forte. Tinha um desgosto, não ter conseguido dar tudo o que a sua menina merecia. Só queria vê-la feliz, conquistando o mundo e beneficiando de toda a positividade que detém. A Leonor merecia, sempre foi uma menina responsável, independente e sofredora. Sempre soube secar as lágrimas à frente de todos e desabar o seu mar de lamentações quando estava sozinha. Foi a avó que a incentivou a sair dali, daquela cidade grande e confusa, após a morte do pai. A mãe dela, essa, só lhe deu a vida, nada mais. Nunca mereceu ser chamada de "mãe". E nesse Domingo, Leonor regressou a Lisboa, agora acompanhada por Guilherme, a sua melhor companhia. Entrou no quarto da avó e deu-lhe um abraço sentido. Aquela senhora foi avó, mãe e tudo o que uma mulher pode ser na vida de uma criança, rapariga e mulher. Toda a família se resumia às duas. Elas riram-se, choraram e iniciaram a típica conversa de quem está afastado. Começaram a surgir as novidades.


- Vó, quero apresentar-te uma pessoa... - E naquele momento fez sinal para Guilherme avançar, ele que aguardava impaciente à porta, observando toda a ternura daquelas duas mulheres fortes, divididas por gerações distintas.
- Muito prazer. Ouvi falar muito bem de si - disse Guilherme de sorriso no rosto enquanto se curvava para beijar aquela face radiante
- Ora essa! Se cá veio é porque é especial. Sei disso.
Ele sorriu e olhou para Leonor como quem pergunta
- Eu nunca dei a conhecer qualquer namorado. És a primeira pessoa que apresento como tal.
Ele não sabia o que dizer. Sentiu-se maior do que realmente era. Sentiu-se mesmo especial. Palavras sábias vindas de uma pessoa experiente
- É um orgulho e um prazer ter sido o tal. Se depender de mim, não conhecerá outro, Dona...
- Maria, chamo-me Maria.
- Encantado! Sou o Guilherme.


E os 3 ficaram ali a falar, virados para o jardim verde e florido. A Dona Maria sentada no cadeirão de palha e Leonor e Guilherme sentados nos pequenos bancos ao seu redor. A conversa fluiu e nem deram pelo tempo passar. A senhora sorria com vontade, de sorriso rasgado, verdadeiro, natural como a sua beleza. A neta era parecida com a Dona Maria e aquele momento despertava em Guilherme a vontade de viver uma vida ao lado de Leonor, poder um dia partilhar tardes de sol ao seu lado, nos cadeirões da sabedoria que a velhice premeia.

No caminho para casa ele agarrou-a e beijou-lhe a testa, fechou os olhos e disse-lhe:


- Obrigado Leonor.
Ela sorriu como quem percebe.
- És parte de mim e se não sentisse isso não te tinha levado lá.

Tudo parecia perfeito, um sonho tão real.

Ao som do coração

Capítulo 6

O relógio despertava, eram 8.30 da manhã e o sol já furava as persianas. Aquela hora era proibitiva a um sábado, ainda para mais depois de uma noite que durou até perto das 6 da manhã. Mas aquela noite foi atípica. O sono foi leve e os sonhos invadiram-lhe a tranquilidade. Sonhou muito, com o que queria e não devia. Tomou um bom pequeno almoço, vestiu uma roupa confortável e saiu de bicicleta. O exercício físico tornava-a activa, bem disposta e afastava-lhe as más energias ou quaisquer dúvidas. Leonor era uma mulher de rotinas diárias saudáveis e o exercício fazia-a esquecer-se de quem era no mundo e o que o mundo verdadeiramente era. Pedalava com um objectivo: ir ver o seu maior amigo, o seu fiel ouvinte, o mar. Lá podia sentar-se e desabafar, contar tudo o que lhe vinha à cabeça.

 O relógio marcava 9.00 horas mas ele contava os minutos fazia tempo. Levantou-se com vontade de ir ver o mar, caminhar e respirar a brisa fresca matinal. Tinha de acalmar o coração, assentar ideias e estabelecer prioridades. Parecia que, num ápice e sem dar conta, um furacão passara pela sua monótona vida, revirando-lhe sentimentos e sentidos há muito ignorados. Ele e o mar, dois amigos de infância e uma imensidão de segredos guardados.

O sol brilhava bem no alto quando Guilherme reparou em Leonor. Ela não o tinha visto, ia concentrada na sua volta e num ritmo bem mais intenso. Ele acenou mas não obteve resposta. Desceu as rochas, pisou a areia e molhou os pés. A água fria e translúcida faziam-no sentir-se vivo. A vida era muito mais do que o coração, mas... o coração trazia muito mais à vida. Após breves minutos de reflexão subiu. Era hora de almoço em família e a casa dos pais era sempre a "sua casa". Eis que, naquele momento, dá de frente com Leonor. Colocou-se na sua rota, confiando de que pararia. A muito custo ela lá estabilizou a bicicleta, não sem antes Guilherme ter posto as mãos no volante e ter dado um salto à retaguarda por precaução.

- Foi por pouco
- Desculpa! Foi mesmo por pouco.
- Está tudo bem, Leonor?
- Está. E contigo, Guilherme?
- Também! O que vais fazer logo, antes do espectáculo, ou depois, ou amanhã...? - a pergunta desajeitada na tentativa de não a deixar ir.
- Não sei quando consigo, estou com pouco tempo para tanta coisa.
Ele sentiu-a um pouco mais fria, mais distante. O beijo que os colou levou-a para longe. Ele conseguia sentir o desconforto nas suas palavras. Limitava-se a responder sem grandes sorrisos e o "Gui" passou a Guilherme. Subitamente, a rapariga que lhe ligou a meio da noite já não pretende ligar-lhe nenhuma. Estranho, verdadeiramente estranha a cabeça das mulheres...
- Mas aparece sempre por lá, no bar. Teremos todo o gosto. O bar é feito de pessoas apaixonadas por música. - tentava finalizar delicadamente, sem grande confiança mas sem má educação.
Ele ouvia-a de orelhas baixas como um cachorro triste. "Nós teremos todo o gosto", não ela... Começava a haver distanciamento entre ambos.
- Tudo bem, Leonor. Então até uma próxima.

O seu orgulho não o permitia rebaixar-se em demasia. Em tempos tinha prometido não voltar a entregar-se ao desbarato. Deu-lhe um pequeno beijo na face e virou-lhe as costas. Ela guardou aquele gesto a sete chaves, demorando a recuperar as forças para pedalar. Inspirou fundo e seguiu o seu rumo. Foram por caminhos opostos, tomaram rumos diversos.

Passaram-se 2 semanas sem falar, sem se verem, sem se cruzarem. Para ele isto não fazia sentido mas era melhor assim, pois a perder que fosse agora, enquanto sente pela metade. Já Leonor sentia o peito encolher a cada novo dia por ver o que estava a fazer àquele homem. Ele não merecia tal atitude, mas primeiro estava a sua protecção. Ele podia não saber boiar no mar de problemas da sua vida, e levá-lo ao fundo era uma culpa enorme, uma cruz que não queria carregar. Amar nunca foi o seu forte, não sabia escolhê-los, nunca soube, e até agora tudo o que ganhou foi medo de se entregar.



  Capítulo 7


Guilherme não aguentava aquela voz interior. Contorcia-se para a acalmar, mas em vão. Precisava da Leonor e estava decidido a encontrá-la. Ela tinha-lhe ligado uma vez e o seu número estava lá registado. Ligou-lhe uma e outra vez, sem resposta. Mas não se cansou, pois o silêncio era tudo o que tinha e nada pior podia advir. Numa outra tentativa, já ao final da tarde, ela atendeu.

- Estou?
- Sim, Leonor...
- Desculpa, Guilherme mas agora não posso
- Espera, não desligues, por favor. Se não pudesses não atenderias. Deixa-me falar.
- Diz...
- Vamos jantar, conversar como dois adultos e resolver isto de vez. Ou tentar. Merecemos uma conversa e talvez uma conversa seja suficiente para percebermos o que queremos
- Ok, uma conversa, não um jantar. Encontramo-nos na praia, precisamente no sítio onde nos vimos pela última vez.
- Tudo bem, combinado. Agora?
- Dá-me 10 minutos e vou para lá.
- Então até já
- Até já. 

Assim que ele desligou ela fechou os olhos e apertou o telemóvel contra o seu peito, envolto nas suas suaves mãos. - Merda, merda, merda... é ele, não desiste! - exclamava alto para só ela ouvir. Sentia-se feliz por ser pretendida, logo por uma pessoa tão especial. Todavia, namorar é abrir mão de muita coisa, sentir mais do que o habitual, sacrificar um rumo em prol de outro. E toda essa ideia dava-lhe uma forte dor de cabeça. Ele não desistiu, um problema, mas uma possível prova de meio amor.

Encontraram-se lá, no mesmo sítio, ao pé das rochas. Ele esperou 5 minutos por ela, como é da praxe. Nunca lhe passou pela cabeça ela não aparecer. Ele sabia que Leonor era forte para encarar, mesmo que fosse frágil para resolver de vez. Pouco depois ela apareceu, de vestido justo, cabelo brilhante e baton apelativo. As suas pestanas eram longas e curvadas, os seus olhos cintilavam. Ela era linda, o seu coração descontrolado confirmava-o, e o facto de estar tanto tempo sem a ver deu-lhe ainda mais certezas. 

- Olá, Guilherme - cumprimentou-o antes de lhe beijar a face
- Uau, Leonor. - ele revelou-se logo na primeira fala.
Ela sorriu e rapidamente corrigiu a postura;
- Obrigada, mas o que nos traz cá?
- Nós. Exactamente nós. O que mudou desde aquela noite em que nos beijámos?
- Isso foi um erro, Gui.
- Um erro? Não me pareceu... e se tu não és comprometida e eu também não, se temos gostos em comum, porque tem de ser um erro?
- Não sejas assim. Deixa a tua retórica para o trabalho. Sê prático!
- O que não estás a ser, nem prática nem justa comigo e contigo.
Desceram e foram ver o mar. Sentaram-se à sua beira, de sapatos na mão e areia nos pés. O mar parecia querer juntá-los.
- Ele quer-nos juntos - Disse Guilherme na tentativa de a convencer da evidência.
- O mar quer que sejamos felizes. E a felicidade nem sempre passa por ser a dois.
- Porque não? Diz-me que não gostas de mim, que não me desejas. Dá-me uma razão para não me deixares continuar na tua vida
- Gui, eu sou um monte de problemas, sou independente desde os meus 16 anos, habituada a pensar por mim, a decidir por mim. Além disso, sofri demais com vocês, homens. E tenho um ex-namorado rico que ainda hoje me persegue. Achas que tinhas espaço nesta confusão? Onde poderias ser tu mesmo?
- Em tudo! Não quero ser a tua vida, quero vivê-la contigo. Quero provar-te que sou eu o homem que representa o plural, e não alguns idiotas em quem te perdeste. E quanto ao ex-namorado, quero ser eu a mostrar-lhe que ele já faz parte do passado, metê-lo naturalmente no seu lugar. Juntos seremos mais fortes.

Ela ouviu e ficou a procurar argumentos enquanto se derretia. Ele era inteligente e parecia tão verdadeiro quanto calmo. Ele beijou-a, o argumento final. Agora era a sua vez. Ela deixou-se beijar desde o primeiro ao último segundo. Entregou-se ao beijo por inteiro só protestando quando terminara:

- Pára, não me queiras convencer assim. Não mereces arcar com os problemas que não são teus.
- Eu mereço-te, do jeito que és. Se não fosses assim provavelmente não estaria aqui a pedir-te uma chance. E eu também sou uma pilha de lixos passados. Também tenho um passado complicado que procuro deixá-lo para trás a cada dia. E acredita, só tu consegues atribuir significado ao ontem, hoje e amanhã
.- Não me magoarás? Não me trocarás por sentimentos adormecidos? Por pessoas que possam reentrar na tua vida? Sei que essa Sónia será sempre a "tua" Sónia.
- Sim, será sempre a Sónia. Para o bem e para o mal. Mas já não somos crianças, somos dois adultos com um passado que nos fez crescer. Também sei que não serei nunca esse teu ex-namorado, Lourenço, certo?
- Sim
- Pronto. Também não tenho certeza de que um dia não me trocarás por ele. Mas confio em ti, sei que te darei todas as razões para nunca o fazeres e a vida é mesmo isso, uma incerteza, um dia de cada vez.

Ela chorou. Não compulsivamente, mas os seus olhos ficaram rapidamente brilhantes e mais claros. O canto do olho ficou lacrimejado e pelo rosto escorreu uma gota de água que valia por mil palavras. Ele limpou-lhe a lágrima com os seus dedos e acariciou-lhe o rosto com a mão.

- Nunca ninguém me disse tais palavras. És especial, tu. Não percebo como ninguém te tenha agarrado antes e nunca mais largado.
- Não digas isso. Sou imperfeito como todos os outros. Talvez mais do que outros numas coisas, talvez menos noutras. Mas sou humano e pouco mais, como diz o Paulo Gonzo.
Ela riu-se. Ele tinha sentido de humor, lidava bem com a pressão e era encantador. Abraçou-o, juntou o nariz ao dele e pediu-lhe com toda a alma:
- Promete-me que serás sempre meu amigo, quererás sempre o meu melhor e nunca me magoarás.
- Prometo-te. Quero ser sempre isso. Quero que sejas tudo.

E assim se beijaram, abraçados, enrolados na areia. Assim correram pela praia, molhando os pés, rindo-se do inexplicável e correndo atrás da felicidade. Eram duas crianças na praia, onde o sol se punha e o amor aparecia. 


- Anda, vamos jantar a minha casa. Irás conhecer o meu lar.
- Combinado - disse Guilherme conquistado por tudo o que aquela mulher dizia. 


Jantaram naquela pequena casa, onde a alegria parece decorar as paredes recheadas de quadros, com o estilo clássico da madeira escura e toque magistral de mulher. No fim do jantar enroscaram-se no sofá, nos braços um do outro. O filme mal ia a meio quando as carícias começaram a aumentar. O desejo invadia aqueles dois. Era a chama ardente inicial, que a paixão faz disparar. Queriam-se como nunca e o quarto de Leonor recebeu-o de braços abertos. Foram amor pela noite inteira, foram amantes em  lençóis finos de seda. Ele ficou na casa dela e ela dormiu no seu peito.

domingo, 13 de julho de 2014

Ao som do coração

Capítulo 4

Era quinta-feira, a noite apresentava-se como longa e pedia boa companhia. A música era o motivo pelo qual Guilherme saía de casa. Engano, puro engano. Já não conseguia enganar-se nessa falsa afirmação. A música era uma grande paixão mas tratava-se de um bónus. A voz dela, o rosto dela, ela, tudo o que o fazia sair e ir àquele bar era ela. Entrar, ver aquele belo rosto, sentir a sua presença, ouvir a sua voz... pequenos prazeres que o tornavam cada vez mais vivo, cada vez mais completo. Ela era música para os seus ouvidos. Entrou e sentou-se bem perto da banda, sendo de imediato cumprimentado pelo bonito sorriso da vocalista. Ele brindou-lhe a bebida, ela agradeceu com a cabeça. Quando se preparava para dar o prometido gole ouve algo inesperado:

- Para a próxima música chamo um amigo meu... - apontou para a direcção de Guilherme, levando-o a ficar incrédulo. Todos se viraram para ele, concentrando em si todas as atenções. As palmas vieram rapidamente e era tarde demais para negar tal aventura. Competia-lhe agora ter a coragem suficiente de assumir o desafio e fazer a figura de parvo com a maior das dignidades. Levantou-se estupefacto e caminhou em tremores interiores. Chegou-se ao pé dela e sussurrou-lhe discretamente
- Pagarás bem caro por isto!
Ela sorriu e continuou despreocupada, desfrutando do momento.De pronto pediu-lhe para se apresentar. A medo disse que se chamava Guilherme. O público bateu palmas e encorajou-o. Ela pediu música e a banda respondeu no imediato. O ritmo era lento e a letra sentida. A paródia dava vez ao sentimento. Nada mais nada menos do que "Fix You" dos Coldplay. Ele, que já tremia, parecia desmontar-se em pedaços. Ela, que se ria, parecia ser agora completamente séria e de olhar sofrido. Ambos conheciam a música de cor, cada compasso, cada verso. Tudo correu como planeado, ele com voz de cana rachada, ela com voz angelical. Pelo meio ela procurou-lhe a mão, terminando a improvável actuação de mãos dadas. Aquela vergonha afastou-o de vez de qualquer carreira musical mas nunca se tornara tão próximo de uma vocalista. Com o fim da música voltaram os sorrisos, os agradecimentos pela "brincadeira" e uma ida ao bar, na procura imediata por uma bebida. Encontraram-se no já habitual balcão:


- Portou-se muito bem, Guilherme, parabéns!
- Não sei se me safei, mas que estou vivo, lá isso estou! Já agora, chamas-te...
- Leonor! - dando-lhe a mão para ser beijada. Um gesto nobre e clássico, bem ao jeito de tal nome.
- Muito prazer, Leonor. Então a música e a bicicleta são as suas paixões?! E parece que me quer matar em ambas...
Ela ficou surpreendida - Como sabes? São sim, ambas fazem-me sentir bem comigo mesma.
- Um dia quase me atropelaste e tudo te chamei. Hoje quase me mataste e tudo me apeteceu chamar-te - Um grande sorriso acompanhou a piada, para não ofender.
- Não acredito, peço-te imensa desculpa! Não foi intencional.... - corou um pouco, sentiu-se julgada em praça pública, acusada sem defesa previamente feita - Bem, Guilherme, vou indo. Terei todo o gosto em voltar a ver-te! Tens um agradável sentido de humor.

Ele sentiu novamente a janela de oportunidade. Ela era boa nesse jogo mas ele não sabia jogá-lo. Riu-se e deixou-a ir, sem número, sem convite, sem resposta. Chegou a casa e sentiu-se arrependido por tudo o que não disse, por aquilo que não fez. Odiava sentir-se assim, isso matava-o. Ligou a televisão e adormeceu a ver um debate desportivo às tantas da manhã. Mas na sua cabeça só pairava o jogo da vida que tinha jogado, o penalti que infantilmente tinha desperdiçado. Entregou-se ao sono e deixou as dúvidas para amanhã. 




 Capítulo 5

Sexta-feira, último dia útil da semana e o desejo de todos os dias passados. Guilherme gostava da Sexta à noite, da sensação de liberdade, quase irresponsabilidade que ela aparenta. As ruas voltam a ser inundadas por gente, os bares movimentados e a alegria invade as janelas das casas sob a forma de luz. Mas o trabalho não tinha noção do tempo, muito menos do calendário. O computador era o seu inimigo principal e ali estavam os dois, naquela relação amor-ódio a que se habituaram. Os processos pendentes não esperavam e os prazos corriam em sentido oposto à sua vontade. Mas aquelas paredes de sua casa tornavam-se cada vez mais apertadas. A claustrofobia apoderava-se de si e a solidão roubava-lhe as forças. Decidiu tomar banho, trocar de roupa, baixar o ecrã do computador e suspender o trabalho. Ia ao bar ver a Leonor, a sua nova amiga.Ela cantava de olhos fechados aquela música. Ele sentou-se sem fazer qualquer ruído e saboreou aquele pedaço de perfeição. "O Lugar" de Tiago Bettencourt. A cultura musical dos dois era notória. Ela cantava e ele acompanhava, cada verso, cada letra, cada sentimento... eles completavam-se. No final da música ele levantou-se, bateu palmas e deu-lhe um enorme sorriso. Respirou fundo e deu-lhe um sinal para ela se dirigir ao bar, como era natural. Ela recebeu a mensagem mas não era ainda a altura. Cantou por mais duas vezes antes de aceder ao seu pedido.

- Boa noite, Gui! - hoje era Gui. A confiança entre os dois era crescente e ele sentia-se cada vez mais confiante com ela.
- Boa noite, Leonor! Sempre maravilhosa - elogio retórico, sem necessidade de resposta. O seu sorriso bastava - Gostava de te pagar uma bebida, aqui ou noutro lado qualquer...
- Não bebo enquanto trabalho. Mas terei todo o gosto numa outra altura...
- É com muita pena minha que hoje não posso ficar por muito mais tempo. Apenas vim dar-te um sorriso e ouvir a tua bela voz.
- Muito obrigado. É uma honra ter-te por cá. É sempre fantástico ver alguém sentir o que nós cantamos.
- Então, sendo tu a artista daqui, de agenda extremamente preenchida, porque não aceitares o meu número e ligares-me quando puderes sentar-te para tomar um copo comigo e falarmos sobre a vida, a música e tudo o que nos vier à cabeça? - O trabalho estava-lhe a fazer mal.  O cansaço estava a levá-lo a expor-se demasiado, arriscando muito mais que o habitual.
Ela estranhou tamanha iniciativa. Era um passo muito grande para o que ele a acostumara. O rapaz envergonhado que mal lhe disse olá estava agora a dar-lhe o número para ela lhe ligar...
- Não leves a mal, Leonor, numa boa...
- Sim, sem problemas. Terei todo o gosto - rapidamente se questionou tentando perceber o que a levou a aceitar tal disparate
- Tenho de ir, adeus - dando-lhe um beijo suave na face esquerda.


Ela recebeu aquele beijo em profundo silêncio. Sentiu cada momento como se eterno se tratasse. Estremeceu. Ele era um galã mesmo, um pouco destreinado mas um galã. Era tão natural que não tinha como se enganar. E o melhor era conhecê-lo. Só conhecendo-o é que podia decifrar o enigma de vez. Prometeu guardar o número e um dia responder. Estava certa que não iria faltar ao prometido.

 Guilherme foi para casa empolgado pela sua bravura, envolto em adrenalina. Levantou o ecrã do computador, abraçou os livros e códigos que precisava, arregaçou as mangas e enfrentou o desafio do trabalho nocturno. Desde os tempos da Faculdade que ele sabia o que era perder noites para os livros, queimar pestanas na procura desesperada de ganhar tempo ao tempo. Deixou-se ficar ali, naquela sala, com a companhia do café e da televisão em volume baixo. Sentia-se sempre acompanhado com a televisão ligada. O relógio marcava quase 4 horas da manhã quando o seu telemóvel toca. Quem seria àquela hora? Não era normal nestes últimos tempos o seu telemóvel tocar a horas tardias... Um número desconhecido ligava. Hesitou mas atendeu. 

- Estou? - Perguntou sem saber o que esperar do lado de lá.
- Sim, Guilherme? - era a voz dela, da Leonor, sem ritmo ou afinação
- Leonor? Olá, Boa noite!
- Desculpa estar a ligar-te, mas saí agora do bar e estou sem sono e a caminho de casa. E lembrei-me...
- E que tal beber um café ou um chá?
- Aceito! Encontramo-nos onde?
- Aqui em minha casa. Vou-te buscar!- Não sei se é a melhor ideia...
- Sem medo, Leonor. Confia, apenas uma conversa
- Está bem, aceito, combinado - mais uma loucura, ela parecia não conseguir controlar os planos do seu destino.


Apesar das dúvidas ela aceitou e, após breve explicação encontrou a pequena e acolhedora casa. Entrou e foi convidada a sentar-se no sofá. A casa era simples, de linhas direitas, decoração moderna e fresca. Notava-se a falta de mão feminina, percebia-se a ausência do perfume de mulher. Confrontada com a decisão de o que beber escolheu chá frio. Tudo certo, o chá veio e sentaram-se os dois no sofá, frente a frente. A conversa fluiu e ela confessou a sua enorme paixão pela música e pelo mar. O talento da sua voz só o descobriu aos 16, quando o pai morreu e ela decidiu sustentar-se por si só. O mar sempre foi uma paixão desde pequena, paixão essa negada pelo betão de Lisboa, cidade onde nasceu e cresceu. A vida deu-lhe voltas e a Psicologia cedeu perante a necessidade de trabalhar. Ficou-se pelo 3º ano, incompleto. Adora a mente humana, a reacção humana aos estímulos e os comportamentos perante as mais diversas situações. Guilherme confessou-lhe também ser doido por música, apesar de não saber cantar. Conhecia bem Lisboa, pois foi lá que se formou em Direito. O mar era a sua maior companhia, o seu maior confidente, e aquela era a sua terra, onde nasceu e viveu. Onde está disposto a passar uma vida. Pelo meio falaram de músicas, letras, cd´s e bandas intemporais. Os sofás pareciam ficar cada vez mais próximos. Os desgostos de amor também vieram à colação. Ela era solteira, farta de homens errados, mulherengos, mimados, egoístas e egocêntricos. Falou-lhe por alto de um Lourenço, um menino de bem, rico, de grandes famílias e de pouco amor. Amor próprio chegava-lhe e até com esse tinha dificuldades em lidar. Talvez tenha sido esse Lourenço o motivo da sua vinda para esta cidade. Já Guilherme deu a conhecer Sónia, o seu grande amor que acabou como os pequenos amores acabam, de um dia para o outro, sem justificação ou qualquer conversa. Mas o tempo trouxe as respostas e trará a bonança. Os dois deram a conhecer as suas feridas interiores, cosidas a pontos largos e mal dados, sangrando um sangue escuro de dor. Mas a vida tinha esse condão, tirava com uma mão para dar com a outra. Afinal, aquele "Gui" era mesmo um homem raro e aquela Leonor era uma mulher guerreira, lutadora, suportando o peso de uma vida como se nada fosse.Já era tarde, perto das 6 da manhã e ela não pertencia àquele espaço. Levantou-se, poisou a caneca e, movida a forte impulso, beijou-o intensamente. Provou-o, tomou-lhe o gosto. Ele era suave, delicado mas gostoso. Virou-se envergonhada, levando-lhe o sabor nos lábios.


- Desculpa... - Dirigiu-se para a porta, olhou-o e saiu
- Espera.. - pediu Guilherme em vão. Ele segurou a porta e viu-a afastar-se envergonhada, de andar apressado, suportando o embaraço do momento sozinha. Ela era arrojada como as grandes mulheres, mas reticente como as meninas. Era uma menina-mulher fantástica. Cada dia que passava mais certezas tinha.

 Fechou a porta e olhou o computador. Ficou ali a olhar no vazio, pensando no que tinha pela frente, no que queria, pedindo aos Deuses para não brincarem de novo ao amor. Ele queria um amor verdadeiro e ela era uma mulher de verdade. Foi-se deitar com o beijo dela. Um beijo, um sonho de mulher.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Ao som do coração

Capítulo 2

Ela centrou o olhar nele. Não por ser extremamente bonito, apenas por o ser minimamente e por saber de cor todos os versos que cantava. As músicas que escolheu levavam a sua voz e alma, traziam cada bocadinho da sua vida e, inexplicavelmente, ele sabia-os de cor, cantava, entoava, interpretava e sentia-os. Não sabia explicar o que via nele, mas era como se um espelho reflectisse o que cuspia do coração. Decidiu ignorá-lo, devia ser fácil, afinal de contas era só mais um entre tantos outros que ali estavam a ouvi-la. Fechou os olhos para cantar "Use Somebody". Quando os abriu, lá estava ele, de bebida na mão, olhar seguro e letra na ponta da língua. Ele era como ela, um apaixonado pela música, pelas palavras, pelos sentimentos, pelos pequenos e esquecidos prazeres da vida. O relógio marcava 3.30 horas da madrugada, ele preparava-se para pagar ao balcão e ela acabara de cantar. Na tentativa de aproximar o contacto, até então meramente visual, decidiu ir buscar uma garrafa de água. Parou ao seu lado, como quem não o vira. Ele olhou-a como quem lhe quer falar. Ela sorriu e virou costas. Agora, ele que aproveitasse o momento que acabou de criar. Ele olhou-a, de sorriso parvo no rosto e nada lhe disse. Ali permaneceu, estático - Merda! - pronunciava em voz interior, como quem sabe que a vida é feita de momentos e momentos são oportunidades que nos surgem. Deixou-a ir quando tudo o que queria era fazê-la ficar. Ela percebeu que ele não avançava. Talvez por não estar interessado, talvez fosse comprometido. Ele era charmoso, disso não havia dúvidas, não era um Deus grego mas não precisava de o parecer para ser. Melhor dizendo, era de tal maneira sereno e sorridente que lhe demonstrava tranquilidade, segurança e confiança. Tudo o que precisava. Um galã clandestino, ou talvez não. Provavelmente uma outra mulher já o descobriu... O melhor era não ligar muito a isso, homens são homens, existem muitos, mas poucos são os que valem apena. Ainda agora acabou de o ver e já o julgava conhecer, já começava a achá-lo um príncipe encantado. Vai daí e ele era uma besta, como tantos outros. Um lobo em pele de cordeiro, como o costume. O melhor era ir embora e foi isso que fez. Os dois saíram sem se chegarem a falar. Tão perto e tão longe, e amanhã é sempre tarde demais.

 Seguiram-se mais 3 sábados seguidos de música, olhares em segredo e desassossegados. Num deles, ele chegou ao balcão e pediu um Gin. Ela queria apenas a sua garrafa de água. Nova oportunidade e ela estava decidida a tirar algo mais. Queria conhecê-lo, saber o seu nome ou simplesmente ouvir a sua voz. A dela ele já conhecia.



Capítulo 3

 - Olá, tudo bem? - abordou-o pouco antes de se mostrar desinteressada. Truques femininos que os homens teimam não compreender. Ele olhou-a como quem duvida ser o receptor de tais palavras.
- Ah, olá! - falou por falar, educadamente, sem saber ao certo o que dizer, sem saber o que deveria ser dito.
Ela sorriu e virou-lhe o rosto enquanto trincava a palha da sua bebida. Cabia-lhe "mexer-se", fazer com que se conheçam de vez. A medo, ele tocou-lhe no braço:
- Desculpa, queria dizer-te que cantas muito bem, apesar de me fazeres tão mal... - achou-se prontamente o maior dos idiotas, um parvo que não sabe o que diz, que afasta por não saber aproximar. Mas ela sorriu genuinamente. Ele pensava estar perdido com a má abordagem, logo perante uma mulher confiante, desejada e sedutora. Na realidade, ela achara a abordagem inexperiente mas engraçada e não tardou a responder:
- Obrigada - rasgando a palavra simpática com um sorriso emotivo - Espero que gostes, a música toca na alma, lava-a e mostra-nos quão imunda ela é.
Ele ficou a interiorizar tais palavras. Curtas mas profundas. Nada mais havia a dizer, era apenas ouvido, todo ouvido. Respondeu quando se sentiu preparado:
- Tens razão. Não saberia dizer melhor.

A conversa ficou por ali. Ele foi embora orgulhoso pelo passo dado, satisfeito por não ter vacilado e por ter chegado até ela. Não lhe perguntou o nome mas conseguiu ter a sua atenção. Ela permaneceu igual a si mesma, detentora da superioridade feminina que o homem reconhece.
De certeza que se voltariam a encontrar. Tudo parecia simples agora, quebrado o gelo que o olhar não transpunha. Quinta-feira era a próxima noite de música no bar e a probabilidade daqueles dois se voltarem a cruzar tinha acabado de aumentar.