domingo, 13 de julho de 2014

Ao som do coração

Capítulo 4

Era quinta-feira, a noite apresentava-se como longa e pedia boa companhia. A música era o motivo pelo qual Guilherme saía de casa. Engano, puro engano. Já não conseguia enganar-se nessa falsa afirmação. A música era uma grande paixão mas tratava-se de um bónus. A voz dela, o rosto dela, ela, tudo o que o fazia sair e ir àquele bar era ela. Entrar, ver aquele belo rosto, sentir a sua presença, ouvir a sua voz... pequenos prazeres que o tornavam cada vez mais vivo, cada vez mais completo. Ela era música para os seus ouvidos. Entrou e sentou-se bem perto da banda, sendo de imediato cumprimentado pelo bonito sorriso da vocalista. Ele brindou-lhe a bebida, ela agradeceu com a cabeça. Quando se preparava para dar o prometido gole ouve algo inesperado:

- Para a próxima música chamo um amigo meu... - apontou para a direcção de Guilherme, levando-o a ficar incrédulo. Todos se viraram para ele, concentrando em si todas as atenções. As palmas vieram rapidamente e era tarde demais para negar tal aventura. Competia-lhe agora ter a coragem suficiente de assumir o desafio e fazer a figura de parvo com a maior das dignidades. Levantou-se estupefacto e caminhou em tremores interiores. Chegou-se ao pé dela e sussurrou-lhe discretamente
- Pagarás bem caro por isto!
Ela sorriu e continuou despreocupada, desfrutando do momento.De pronto pediu-lhe para se apresentar. A medo disse que se chamava Guilherme. O público bateu palmas e encorajou-o. Ela pediu música e a banda respondeu no imediato. O ritmo era lento e a letra sentida. A paródia dava vez ao sentimento. Nada mais nada menos do que "Fix You" dos Coldplay. Ele, que já tremia, parecia desmontar-se em pedaços. Ela, que se ria, parecia ser agora completamente séria e de olhar sofrido. Ambos conheciam a música de cor, cada compasso, cada verso. Tudo correu como planeado, ele com voz de cana rachada, ela com voz angelical. Pelo meio ela procurou-lhe a mão, terminando a improvável actuação de mãos dadas. Aquela vergonha afastou-o de vez de qualquer carreira musical mas nunca se tornara tão próximo de uma vocalista. Com o fim da música voltaram os sorrisos, os agradecimentos pela "brincadeira" e uma ida ao bar, na procura imediata por uma bebida. Encontraram-se no já habitual balcão:


- Portou-se muito bem, Guilherme, parabéns!
- Não sei se me safei, mas que estou vivo, lá isso estou! Já agora, chamas-te...
- Leonor! - dando-lhe a mão para ser beijada. Um gesto nobre e clássico, bem ao jeito de tal nome.
- Muito prazer, Leonor. Então a música e a bicicleta são as suas paixões?! E parece que me quer matar em ambas...
Ela ficou surpreendida - Como sabes? São sim, ambas fazem-me sentir bem comigo mesma.
- Um dia quase me atropelaste e tudo te chamei. Hoje quase me mataste e tudo me apeteceu chamar-te - Um grande sorriso acompanhou a piada, para não ofender.
- Não acredito, peço-te imensa desculpa! Não foi intencional.... - corou um pouco, sentiu-se julgada em praça pública, acusada sem defesa previamente feita - Bem, Guilherme, vou indo. Terei todo o gosto em voltar a ver-te! Tens um agradável sentido de humor.

Ele sentiu novamente a janela de oportunidade. Ela era boa nesse jogo mas ele não sabia jogá-lo. Riu-se e deixou-a ir, sem número, sem convite, sem resposta. Chegou a casa e sentiu-se arrependido por tudo o que não disse, por aquilo que não fez. Odiava sentir-se assim, isso matava-o. Ligou a televisão e adormeceu a ver um debate desportivo às tantas da manhã. Mas na sua cabeça só pairava o jogo da vida que tinha jogado, o penalti que infantilmente tinha desperdiçado. Entregou-se ao sono e deixou as dúvidas para amanhã. 




 Capítulo 5

Sexta-feira, último dia útil da semana e o desejo de todos os dias passados. Guilherme gostava da Sexta à noite, da sensação de liberdade, quase irresponsabilidade que ela aparenta. As ruas voltam a ser inundadas por gente, os bares movimentados e a alegria invade as janelas das casas sob a forma de luz. Mas o trabalho não tinha noção do tempo, muito menos do calendário. O computador era o seu inimigo principal e ali estavam os dois, naquela relação amor-ódio a que se habituaram. Os processos pendentes não esperavam e os prazos corriam em sentido oposto à sua vontade. Mas aquelas paredes de sua casa tornavam-se cada vez mais apertadas. A claustrofobia apoderava-se de si e a solidão roubava-lhe as forças. Decidiu tomar banho, trocar de roupa, baixar o ecrã do computador e suspender o trabalho. Ia ao bar ver a Leonor, a sua nova amiga.Ela cantava de olhos fechados aquela música. Ele sentou-se sem fazer qualquer ruído e saboreou aquele pedaço de perfeição. "O Lugar" de Tiago Bettencourt. A cultura musical dos dois era notória. Ela cantava e ele acompanhava, cada verso, cada letra, cada sentimento... eles completavam-se. No final da música ele levantou-se, bateu palmas e deu-lhe um enorme sorriso. Respirou fundo e deu-lhe um sinal para ela se dirigir ao bar, como era natural. Ela recebeu a mensagem mas não era ainda a altura. Cantou por mais duas vezes antes de aceder ao seu pedido.

- Boa noite, Gui! - hoje era Gui. A confiança entre os dois era crescente e ele sentia-se cada vez mais confiante com ela.
- Boa noite, Leonor! Sempre maravilhosa - elogio retórico, sem necessidade de resposta. O seu sorriso bastava - Gostava de te pagar uma bebida, aqui ou noutro lado qualquer...
- Não bebo enquanto trabalho. Mas terei todo o gosto numa outra altura...
- É com muita pena minha que hoje não posso ficar por muito mais tempo. Apenas vim dar-te um sorriso e ouvir a tua bela voz.
- Muito obrigado. É uma honra ter-te por cá. É sempre fantástico ver alguém sentir o que nós cantamos.
- Então, sendo tu a artista daqui, de agenda extremamente preenchida, porque não aceitares o meu número e ligares-me quando puderes sentar-te para tomar um copo comigo e falarmos sobre a vida, a música e tudo o que nos vier à cabeça? - O trabalho estava-lhe a fazer mal.  O cansaço estava a levá-lo a expor-se demasiado, arriscando muito mais que o habitual.
Ela estranhou tamanha iniciativa. Era um passo muito grande para o que ele a acostumara. O rapaz envergonhado que mal lhe disse olá estava agora a dar-lhe o número para ela lhe ligar...
- Não leves a mal, Leonor, numa boa...
- Sim, sem problemas. Terei todo o gosto - rapidamente se questionou tentando perceber o que a levou a aceitar tal disparate
- Tenho de ir, adeus - dando-lhe um beijo suave na face esquerda.


Ela recebeu aquele beijo em profundo silêncio. Sentiu cada momento como se eterno se tratasse. Estremeceu. Ele era um galã mesmo, um pouco destreinado mas um galã. Era tão natural que não tinha como se enganar. E o melhor era conhecê-lo. Só conhecendo-o é que podia decifrar o enigma de vez. Prometeu guardar o número e um dia responder. Estava certa que não iria faltar ao prometido.

 Guilherme foi para casa empolgado pela sua bravura, envolto em adrenalina. Levantou o ecrã do computador, abraçou os livros e códigos que precisava, arregaçou as mangas e enfrentou o desafio do trabalho nocturno. Desde os tempos da Faculdade que ele sabia o que era perder noites para os livros, queimar pestanas na procura desesperada de ganhar tempo ao tempo. Deixou-se ficar ali, naquela sala, com a companhia do café e da televisão em volume baixo. Sentia-se sempre acompanhado com a televisão ligada. O relógio marcava quase 4 horas da manhã quando o seu telemóvel toca. Quem seria àquela hora? Não era normal nestes últimos tempos o seu telemóvel tocar a horas tardias... Um número desconhecido ligava. Hesitou mas atendeu. 

- Estou? - Perguntou sem saber o que esperar do lado de lá.
- Sim, Guilherme? - era a voz dela, da Leonor, sem ritmo ou afinação
- Leonor? Olá, Boa noite!
- Desculpa estar a ligar-te, mas saí agora do bar e estou sem sono e a caminho de casa. E lembrei-me...
- E que tal beber um café ou um chá?
- Aceito! Encontramo-nos onde?
- Aqui em minha casa. Vou-te buscar!- Não sei se é a melhor ideia...
- Sem medo, Leonor. Confia, apenas uma conversa
- Está bem, aceito, combinado - mais uma loucura, ela parecia não conseguir controlar os planos do seu destino.


Apesar das dúvidas ela aceitou e, após breve explicação encontrou a pequena e acolhedora casa. Entrou e foi convidada a sentar-se no sofá. A casa era simples, de linhas direitas, decoração moderna e fresca. Notava-se a falta de mão feminina, percebia-se a ausência do perfume de mulher. Confrontada com a decisão de o que beber escolheu chá frio. Tudo certo, o chá veio e sentaram-se os dois no sofá, frente a frente. A conversa fluiu e ela confessou a sua enorme paixão pela música e pelo mar. O talento da sua voz só o descobriu aos 16, quando o pai morreu e ela decidiu sustentar-se por si só. O mar sempre foi uma paixão desde pequena, paixão essa negada pelo betão de Lisboa, cidade onde nasceu e cresceu. A vida deu-lhe voltas e a Psicologia cedeu perante a necessidade de trabalhar. Ficou-se pelo 3º ano, incompleto. Adora a mente humana, a reacção humana aos estímulos e os comportamentos perante as mais diversas situações. Guilherme confessou-lhe também ser doido por música, apesar de não saber cantar. Conhecia bem Lisboa, pois foi lá que se formou em Direito. O mar era a sua maior companhia, o seu maior confidente, e aquela era a sua terra, onde nasceu e viveu. Onde está disposto a passar uma vida. Pelo meio falaram de músicas, letras, cd´s e bandas intemporais. Os sofás pareciam ficar cada vez mais próximos. Os desgostos de amor também vieram à colação. Ela era solteira, farta de homens errados, mulherengos, mimados, egoístas e egocêntricos. Falou-lhe por alto de um Lourenço, um menino de bem, rico, de grandes famílias e de pouco amor. Amor próprio chegava-lhe e até com esse tinha dificuldades em lidar. Talvez tenha sido esse Lourenço o motivo da sua vinda para esta cidade. Já Guilherme deu a conhecer Sónia, o seu grande amor que acabou como os pequenos amores acabam, de um dia para o outro, sem justificação ou qualquer conversa. Mas o tempo trouxe as respostas e trará a bonança. Os dois deram a conhecer as suas feridas interiores, cosidas a pontos largos e mal dados, sangrando um sangue escuro de dor. Mas a vida tinha esse condão, tirava com uma mão para dar com a outra. Afinal, aquele "Gui" era mesmo um homem raro e aquela Leonor era uma mulher guerreira, lutadora, suportando o peso de uma vida como se nada fosse.Já era tarde, perto das 6 da manhã e ela não pertencia àquele espaço. Levantou-se, poisou a caneca e, movida a forte impulso, beijou-o intensamente. Provou-o, tomou-lhe o gosto. Ele era suave, delicado mas gostoso. Virou-se envergonhada, levando-lhe o sabor nos lábios.


- Desculpa... - Dirigiu-se para a porta, olhou-o e saiu
- Espera.. - pediu Guilherme em vão. Ele segurou a porta e viu-a afastar-se envergonhada, de andar apressado, suportando o embaraço do momento sozinha. Ela era arrojada como as grandes mulheres, mas reticente como as meninas. Era uma menina-mulher fantástica. Cada dia que passava mais certezas tinha.

 Fechou a porta e olhou o computador. Ficou ali a olhar no vazio, pensando no que tinha pela frente, no que queria, pedindo aos Deuses para não brincarem de novo ao amor. Ele queria um amor verdadeiro e ela era uma mulher de verdade. Foi-se deitar com o beijo dela. Um beijo, um sonho de mulher.

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