segunda-feira, 14 de julho de 2014

Ao som do coração

Capítulo 6

O relógio despertava, eram 8.30 da manhã e o sol já furava as persianas. Aquela hora era proibitiva a um sábado, ainda para mais depois de uma noite que durou até perto das 6 da manhã. Mas aquela noite foi atípica. O sono foi leve e os sonhos invadiram-lhe a tranquilidade. Sonhou muito, com o que queria e não devia. Tomou um bom pequeno almoço, vestiu uma roupa confortável e saiu de bicicleta. O exercício físico tornava-a activa, bem disposta e afastava-lhe as más energias ou quaisquer dúvidas. Leonor era uma mulher de rotinas diárias saudáveis e o exercício fazia-a esquecer-se de quem era no mundo e o que o mundo verdadeiramente era. Pedalava com um objectivo: ir ver o seu maior amigo, o seu fiel ouvinte, o mar. Lá podia sentar-se e desabafar, contar tudo o que lhe vinha à cabeça.

 O relógio marcava 9.00 horas mas ele contava os minutos fazia tempo. Levantou-se com vontade de ir ver o mar, caminhar e respirar a brisa fresca matinal. Tinha de acalmar o coração, assentar ideias e estabelecer prioridades. Parecia que, num ápice e sem dar conta, um furacão passara pela sua monótona vida, revirando-lhe sentimentos e sentidos há muito ignorados. Ele e o mar, dois amigos de infância e uma imensidão de segredos guardados.

O sol brilhava bem no alto quando Guilherme reparou em Leonor. Ela não o tinha visto, ia concentrada na sua volta e num ritmo bem mais intenso. Ele acenou mas não obteve resposta. Desceu as rochas, pisou a areia e molhou os pés. A água fria e translúcida faziam-no sentir-se vivo. A vida era muito mais do que o coração, mas... o coração trazia muito mais à vida. Após breves minutos de reflexão subiu. Era hora de almoço em família e a casa dos pais era sempre a "sua casa". Eis que, naquele momento, dá de frente com Leonor. Colocou-se na sua rota, confiando de que pararia. A muito custo ela lá estabilizou a bicicleta, não sem antes Guilherme ter posto as mãos no volante e ter dado um salto à retaguarda por precaução.

- Foi por pouco
- Desculpa! Foi mesmo por pouco.
- Está tudo bem, Leonor?
- Está. E contigo, Guilherme?
- Também! O que vais fazer logo, antes do espectáculo, ou depois, ou amanhã...? - a pergunta desajeitada na tentativa de não a deixar ir.
- Não sei quando consigo, estou com pouco tempo para tanta coisa.
Ele sentiu-a um pouco mais fria, mais distante. O beijo que os colou levou-a para longe. Ele conseguia sentir o desconforto nas suas palavras. Limitava-se a responder sem grandes sorrisos e o "Gui" passou a Guilherme. Subitamente, a rapariga que lhe ligou a meio da noite já não pretende ligar-lhe nenhuma. Estranho, verdadeiramente estranha a cabeça das mulheres...
- Mas aparece sempre por lá, no bar. Teremos todo o gosto. O bar é feito de pessoas apaixonadas por música. - tentava finalizar delicadamente, sem grande confiança mas sem má educação.
Ele ouvia-a de orelhas baixas como um cachorro triste. "Nós teremos todo o gosto", não ela... Começava a haver distanciamento entre ambos.
- Tudo bem, Leonor. Então até uma próxima.

O seu orgulho não o permitia rebaixar-se em demasia. Em tempos tinha prometido não voltar a entregar-se ao desbarato. Deu-lhe um pequeno beijo na face e virou-lhe as costas. Ela guardou aquele gesto a sete chaves, demorando a recuperar as forças para pedalar. Inspirou fundo e seguiu o seu rumo. Foram por caminhos opostos, tomaram rumos diversos.

Passaram-se 2 semanas sem falar, sem se verem, sem se cruzarem. Para ele isto não fazia sentido mas era melhor assim, pois a perder que fosse agora, enquanto sente pela metade. Já Leonor sentia o peito encolher a cada novo dia por ver o que estava a fazer àquele homem. Ele não merecia tal atitude, mas primeiro estava a sua protecção. Ele podia não saber boiar no mar de problemas da sua vida, e levá-lo ao fundo era uma culpa enorme, uma cruz que não queria carregar. Amar nunca foi o seu forte, não sabia escolhê-los, nunca soube, e até agora tudo o que ganhou foi medo de se entregar.



  Capítulo 7


Guilherme não aguentava aquela voz interior. Contorcia-se para a acalmar, mas em vão. Precisava da Leonor e estava decidido a encontrá-la. Ela tinha-lhe ligado uma vez e o seu número estava lá registado. Ligou-lhe uma e outra vez, sem resposta. Mas não se cansou, pois o silêncio era tudo o que tinha e nada pior podia advir. Numa outra tentativa, já ao final da tarde, ela atendeu.

- Estou?
- Sim, Leonor...
- Desculpa, Guilherme mas agora não posso
- Espera, não desligues, por favor. Se não pudesses não atenderias. Deixa-me falar.
- Diz...
- Vamos jantar, conversar como dois adultos e resolver isto de vez. Ou tentar. Merecemos uma conversa e talvez uma conversa seja suficiente para percebermos o que queremos
- Ok, uma conversa, não um jantar. Encontramo-nos na praia, precisamente no sítio onde nos vimos pela última vez.
- Tudo bem, combinado. Agora?
- Dá-me 10 minutos e vou para lá.
- Então até já
- Até já. 

Assim que ele desligou ela fechou os olhos e apertou o telemóvel contra o seu peito, envolto nas suas suaves mãos. - Merda, merda, merda... é ele, não desiste! - exclamava alto para só ela ouvir. Sentia-se feliz por ser pretendida, logo por uma pessoa tão especial. Todavia, namorar é abrir mão de muita coisa, sentir mais do que o habitual, sacrificar um rumo em prol de outro. E toda essa ideia dava-lhe uma forte dor de cabeça. Ele não desistiu, um problema, mas uma possível prova de meio amor.

Encontraram-se lá, no mesmo sítio, ao pé das rochas. Ele esperou 5 minutos por ela, como é da praxe. Nunca lhe passou pela cabeça ela não aparecer. Ele sabia que Leonor era forte para encarar, mesmo que fosse frágil para resolver de vez. Pouco depois ela apareceu, de vestido justo, cabelo brilhante e baton apelativo. As suas pestanas eram longas e curvadas, os seus olhos cintilavam. Ela era linda, o seu coração descontrolado confirmava-o, e o facto de estar tanto tempo sem a ver deu-lhe ainda mais certezas. 

- Olá, Guilherme - cumprimentou-o antes de lhe beijar a face
- Uau, Leonor. - ele revelou-se logo na primeira fala.
Ela sorriu e rapidamente corrigiu a postura;
- Obrigada, mas o que nos traz cá?
- Nós. Exactamente nós. O que mudou desde aquela noite em que nos beijámos?
- Isso foi um erro, Gui.
- Um erro? Não me pareceu... e se tu não és comprometida e eu também não, se temos gostos em comum, porque tem de ser um erro?
- Não sejas assim. Deixa a tua retórica para o trabalho. Sê prático!
- O que não estás a ser, nem prática nem justa comigo e contigo.
Desceram e foram ver o mar. Sentaram-se à sua beira, de sapatos na mão e areia nos pés. O mar parecia querer juntá-los.
- Ele quer-nos juntos - Disse Guilherme na tentativa de a convencer da evidência.
- O mar quer que sejamos felizes. E a felicidade nem sempre passa por ser a dois.
- Porque não? Diz-me que não gostas de mim, que não me desejas. Dá-me uma razão para não me deixares continuar na tua vida
- Gui, eu sou um monte de problemas, sou independente desde os meus 16 anos, habituada a pensar por mim, a decidir por mim. Além disso, sofri demais com vocês, homens. E tenho um ex-namorado rico que ainda hoje me persegue. Achas que tinhas espaço nesta confusão? Onde poderias ser tu mesmo?
- Em tudo! Não quero ser a tua vida, quero vivê-la contigo. Quero provar-te que sou eu o homem que representa o plural, e não alguns idiotas em quem te perdeste. E quanto ao ex-namorado, quero ser eu a mostrar-lhe que ele já faz parte do passado, metê-lo naturalmente no seu lugar. Juntos seremos mais fortes.

Ela ouviu e ficou a procurar argumentos enquanto se derretia. Ele era inteligente e parecia tão verdadeiro quanto calmo. Ele beijou-a, o argumento final. Agora era a sua vez. Ela deixou-se beijar desde o primeiro ao último segundo. Entregou-se ao beijo por inteiro só protestando quando terminara:

- Pára, não me queiras convencer assim. Não mereces arcar com os problemas que não são teus.
- Eu mereço-te, do jeito que és. Se não fosses assim provavelmente não estaria aqui a pedir-te uma chance. E eu também sou uma pilha de lixos passados. Também tenho um passado complicado que procuro deixá-lo para trás a cada dia. E acredita, só tu consegues atribuir significado ao ontem, hoje e amanhã
.- Não me magoarás? Não me trocarás por sentimentos adormecidos? Por pessoas que possam reentrar na tua vida? Sei que essa Sónia será sempre a "tua" Sónia.
- Sim, será sempre a Sónia. Para o bem e para o mal. Mas já não somos crianças, somos dois adultos com um passado que nos fez crescer. Também sei que não serei nunca esse teu ex-namorado, Lourenço, certo?
- Sim
- Pronto. Também não tenho certeza de que um dia não me trocarás por ele. Mas confio em ti, sei que te darei todas as razões para nunca o fazeres e a vida é mesmo isso, uma incerteza, um dia de cada vez.

Ela chorou. Não compulsivamente, mas os seus olhos ficaram rapidamente brilhantes e mais claros. O canto do olho ficou lacrimejado e pelo rosto escorreu uma gota de água que valia por mil palavras. Ele limpou-lhe a lágrima com os seus dedos e acariciou-lhe o rosto com a mão.

- Nunca ninguém me disse tais palavras. És especial, tu. Não percebo como ninguém te tenha agarrado antes e nunca mais largado.
- Não digas isso. Sou imperfeito como todos os outros. Talvez mais do que outros numas coisas, talvez menos noutras. Mas sou humano e pouco mais, como diz o Paulo Gonzo.
Ela riu-se. Ele tinha sentido de humor, lidava bem com a pressão e era encantador. Abraçou-o, juntou o nariz ao dele e pediu-lhe com toda a alma:
- Promete-me que serás sempre meu amigo, quererás sempre o meu melhor e nunca me magoarás.
- Prometo-te. Quero ser sempre isso. Quero que sejas tudo.

E assim se beijaram, abraçados, enrolados na areia. Assim correram pela praia, molhando os pés, rindo-se do inexplicável e correndo atrás da felicidade. Eram duas crianças na praia, onde o sol se punha e o amor aparecia. 


- Anda, vamos jantar a minha casa. Irás conhecer o meu lar.
- Combinado - disse Guilherme conquistado por tudo o que aquela mulher dizia. 


Jantaram naquela pequena casa, onde a alegria parece decorar as paredes recheadas de quadros, com o estilo clássico da madeira escura e toque magistral de mulher. No fim do jantar enroscaram-se no sofá, nos braços um do outro. O filme mal ia a meio quando as carícias começaram a aumentar. O desejo invadia aqueles dois. Era a chama ardente inicial, que a paixão faz disparar. Queriam-se como nunca e o quarto de Leonor recebeu-o de braços abertos. Foram amor pela noite inteira, foram amantes em  lençóis finos de seda. Ele ficou na casa dela e ela dormiu no seu peito.

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