segunda-feira, 14 de julho de 2014

Ao som do coração

Capítulo 10


O seu carro estava à porta de casa de Leonor e a tranquilidade do prédio contrastava com todo o seu nervosismo. Ele tinha viajado sem parar para procurá-la, para enfrentá-la e fazê-la tremer. Lourenço era um "menino" de Cascais, dono de um porte físico bastante significativo e de um bronze de fazer inveja. Mas o que o destacava dos outros era todo o luxo que ostentava. O BMW topo de gama, o Rolex de ouro e as roupas caras. Deixando de lado a superficialidade, não passava de um homem possessivo, mimado e intolerante à rejeição. Tinha perdido Leonor há ano e meio, com quem namorou 3. Se ao início tinha tudo para ser perfeito, com o tempo vieram ao de cima as suas imperfeições de carácter. A agressividade com que lhe falava, a incompreensão que apresentava quando ela não lhe fazia as vontades e a impaciência que revelava tornaram aquele namoro uma bomba relógio. E acabou por explodir. Agora ele estava à sua porta. Não se contentava com telefonemas a meio da noite ou mensagens diárias. Não, ela namorava e ele sabia que havia outra pessoa na vida de Leonor capaz de a fazer feliz como ele não conseguiu. Tal ideia não o deixava descansar, não por amar Leonor loucamente, apenas porque era louco o suficiente para recusar-se a aceitar que perdeu.A sua loucura deu-lhe forças para esperar uma manhã inteira por ela. Foi perto das 13 horas que a viu entrar. Saiu do carro rapidamente e meteu-lhe a mão no ombro

- Leonor, amor?
Ela arrepiou-se quando ouviu aquela voz. Não que a desejasse, não que o seu coração ainda pedisse para ouvi-la. Apenas porque aquela voz representava medo, trazia lembranças infelizes que o tempo teima não esquecer.
- Desaparece, Lourenço. Para quê isto? Não temos nada para falar.
- Temos sim, amor. Sei que resolveremos tudo - enquanto lhe passava os dedos pela franja meia desalinhada.
- Não. O que existiu entre nós morreu, mataste qualquer amor que senti por ti.
- Não digas isso, não te atrevas. Eu vejo como me amas, como me olhas, como me desejas. Volta para mim.
- Pára! Eu estou feliz com o Guilherme, é com ele que estou e quero continuar a estar.
- Eu mato esse cabrão! Juro! Se ele acha que pode tirar-te de mim está muito enganado! E tu, sempre soube, não és de confiança - estava a revelar-se o Lourenço que Leonor temia. Uma autêntica besta que desfaz qualquer afecto.
- Não sejas estúpido. Chega! Chega!!! ACABOU!

Naquele instante ele agarrou-lhe o braço e tentou força-la a beija-lo. Estava descontrolado, fora de si. Um papel de derrotado do mais agressivo que possa existir. Leonor chorava de dor, vergonha, desespero aflição e medo. Naquele instante chega Guilherme, apanhado totalmente de surpresa com aquela cena no mínimo desagradável.

- Que se passa aqui, Leonor? Quem é este sujeito? - correndo imediatamente para aquela confusão, largando-a daqueles braços ameaçadores.
- Quem é este Leonor? É o teu amiguinho? Este paneleirote que não tem onde cair morto?
- Já percebi quem tu és. Sai, vai embora. Já não tens nada aqui. Tudo o que ela quer só eu lhe posso dar. Tudo o que ela precisa é o que não tens. Vai-te embora, garoto!

 Aquela frase não caiu bem em Lourenço que decidiu tirar de esforço de Guilherme e trocaram empurrões. Foram separados por Leonor e pelo vizinho debaixo que ia a entrar naquele instante. A porta fechou-se e o casal ficou do lado de dentro, perante o olhar atento do ex-namorado ciumento.
Ela chorou a tarde inteira. As pernas tremeram-lhe e a voz faltava-lhe.

- Desculpa Gui! Que vergonha! Ele é um anormal e tu não merecias nada disto! - soluçava e as lágrimas escorriam-lhe cara abaixo. Custava-lhe imenso enfrentar a vergonha do passado.
- Não peças desculpa, não tens culpa de ele ser um anormal. E agora estás nos meus braços, comigo, sempre segura.
- Amo-te! - Disse-lhe a palavra mais poderosa do universo enquanto o olhava seriamente

Ele beijou-a. Não sabia o que lhe dizer. Não sabia se a amava, talvez sim, mas dizer amo-te é dar o máximo que se tem e expor-se ao risco, depositando todas as fragilidades no peito de alguém. Ele só disse amo-te a uma pessoa e não estava disposto a dizê-lo a mais ninguém, para já. Abraçou-a como quem abraça o mundo. O seu regaço era dela, só dela. Enquanto procurava esquecer o momento pensou nos problemas da vida: Sónia e Lourenço, duas marcas da mesma dor. Respirou fundo, beijou a testa de Leonor e disse-lhe que amanhã tudo estaria bem. Não a podia deixar sozinha e passou ali a noite, lado a lado, como um casal tem de ser, forte, juntos, mesmo que um esteja a cambalear.


  Capítulo 11


 Os dois viveram meses de músicas, ensaios, passeios de bicicleta, caminhadas, serões românticos e lençóis molhados. A vida de Leonor tinha mudado, para melhor. Agora tinha mais um desafio pela frente. Motivada pelo incentivo de Guilherme, voltou a estudar, estava disposta a encontrar tempo e forças para acabar o que lhe faltava do curso de Psicologia. Mais, o bar onde cantava passou a ser dela. Um investimento grande mas as paixões são assim, enormes, cheias de sonhos, planos e objectivos a superar. Já Guilherme continuava com a mesma vida do costume, rodeado de livros, problemas, clientes desesperados, sentenças incompreensíveis e recursos urgentes. O trabalho era uma dor de cabeça e não havia mãos que chegassem. Mas o seu patrão confiava cada vez mais nele, na sua capacidade de sofrimento e no altruísmo que demonstrava. Os meses passaram de tal maneira que hoje faziam um ano de namoro. Um ano, 12 meses, 365 dias. Um ano é pouco, irrisório comparado com o que ficou para trás, mas um ano é o primeiro, o começo de tudo, o ponto de partida para algo mais. O tempo, esse tinha voado. Ele recebeu-a em sua casa, agora viviam juntos e partilhavam o mesmo espaço. Mas este primeiro aniversário precisava de uma ocasião especial. Guilherme era um romântico e não gostava de se esquecer de datas importantes, nem tampouco banalizá-las na ignorância do esquecimento. Reservou mesa no restaurante preferido de Leonor, o Restaurante Italiano. De seguida iam ver um filme e acabavam a noite a ver o mar. Ela não sabia o que iria acontecer, ele tinha tudo planeado.Jantaram uma pasta verdadeiramente bem preparada ao som de Laura Pausini e o vinho escorria levemente. Ela estava feliz. Sabia que ele sentia de verdade, era verdadeiro quando a olhava como quem lhe promete a eternidade, era genuíno quando a beijava e abraçava, quando tirava a camisola para lha dar, ou quando trocava de lado à beira da estrada para ser ele a ir perto dos carros. Ele mimava-a de todas as maneiras que sabia e não tinha vergonha de o fazer. Ela sentia-se feliz em cada gesto de amor, em cada atitude exemplar que ele tomava. Como poderia uma mulher ignorar tamanhos cuidados? No fundo, por muito que se façam de fortes, gostam de ter alguém que olhe por elas e se entregue de corpo e alma. Ele estava a mostrar-lhe o lado de lá do mundo. O lado correcto do mesmo.
Saíram do jantar e foram ao cinema, ver uma comédia romântica, o ideal para se rirem e sentirem a boa sensação de ser amado. Mas como se não bastasse, assim que o cinema acabou ele levou-a a ver o mar. Pararam o carro e escutaram o barulho das ondas. Era perfeito, a noite perfeita. Namoraram um pouco, com a paixão ardente que ainda revelavam. A noite tinha sido óptima mas melhor ficara quando ele olhou-a nos olhos e mexeu os lábios lentamente

- Amo-te, Leonor.
Ela não sabia o que dizer. Corou, ficou boquiaberta e apenas se lembrou de lhe pedir para repetir
- Amo-te, Leonor! Amo-te!
- A sério? De verdade?
- Ninguém ama a brincar. Amar é o topo e contigo sinto-me bem lá no alto. Não tenho como não te amar.


Ela atirou-se ao seu pescoço e abraçou-o enquanto o enchia de beijos. Ele era perfeito e ela não tinha como lhe mostrar o quanto simbolizava. Na verdade, desde pequena sonhou em ter um homem assim, correcto, justo, sensato, amigo e presente. Todavia, a sua vida e as suas decisões levaram-na a desacreditar-se, chegando mesmo a pensar que o homem não passava de um rude ser imperfeito. Pois bem, enganou-se, e quando menos acreditava, de onde menos esperava, ele veio e deu sentido a tudo. E ele sentia-se curado, como se as suas feridas tivessem fechado e o sangue estancado. Ele olhava-a e via a perfeição, cada vez mais sua, entregando-se, cada vez mais seu. Era ela, só podia ser ela. E lá estava ele, de novo nas garras do amor.

E quando a música embala o peito, não há como passar-lhe ao lado. Sente-se, canta-se o que o outro ouve, e em sintonia ouve-se o seu cantar que se confunde com a nossa voz. Há sintonia no amor, e quando a música deixa de ser apreciada, o amor morreu. A vida de Guilherme teve essa particularidade, perdeu a música de uma vida, mas ganhou a mulher para uma vida através da música. Ele não a procurou, tropeçou nela, encontraram-se num acaso melódico digno de uma história de amor. Assim se constrói a felicidade, um passo de cada vez, ao som do coração, ao som do amor.


Fim.

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