terça-feira, 8 de julho de 2014

Ao som do coração


Ela estava em cada música, em cada letra. Mas por cada música que a fazia ficar, ouvia duas que lhe mostravam que partira. Amar é entregar a nossa fragilidade com a maior coragem de todas, mas desistir é acobardar-se com medo do que se construiu. Ela foi cobarde e fugiu, ele foi cobarde e não lutou. Ela foi para os braços de um novo amor e ele correu para o conforto dos amigos. Ela continuou com a sua vida e ele perdeu-se por completo nela. O que ele queria? Uma vida nova, um novo amor. Grande e verdadeiro, de preferência. Só o futuro lhe restava e, como dizia a música, não se ama alguém que não ouve a mesma canção. 

Talvez surja o dia em que tudo volte a fazer sentido e a música seja outra...



Capítulo 1

1 ano e 23 dias sem Sónia. Ela tinha-lhe dado o que o coração pedia e roubara-lhe tudo o que desejava. Ele sentia a ferida no peito, a queimadura que teimava em mostrar que a vida é feita de perdas, derrotas e desilusões. A Sónia trocara os seus braços por outros, o seu coração por um novo e o seu amor por outro, sem comparação. No fundo, ela dispensou-o com a maior crueldade de todas, tornando-o nada mais do que descartável. Ela usou os seus sentimentos e Guilherme não compreendia tal atitude. E brincar com os seus sentimentos, sonhos, planos e projectos era o pior que lhe podiam fazer. Ele era feito de tudo isso, tudo na sua vida era premeditado, prontamente analisado e previamente estipulado, desde a refeição seguinte à profissão futura. Com ela foram as páginas da sua vida, escritas a tinta permanente de um futuro imaginado. Agora nada mais, era um caderno vazio, de folhas soltas e rasgadas, cheio de páginas por escrever. Todos os dias pensava nisso enquanto olhava o vazio e todos os dias procurava adormecer o pequeno monstro que alimentava dentro de si.
A vida era o presente e aquela tarde de Sábado trazia um sol radiante. A praia dava a paz que a alma pedia e tanto precisava. O céu azul tocava na areia e o mar "banhava" a brisa quente que quase o sufocava. A antítese da vida demonstrada naquele pedaço de paraíso, o contraste perfeito entre o céu e a terra. Ele pisou a areia, estendeu a toalha, lavou a alma naquele mar e secou as lágrimas que guardava naquele sol. Adormeceu e acordou 2 horas depois, com o sol a esconder-se e a perder fulgor. Levantou-se, dobrou a toalha e subiu as escadas construídas nas rochas. Quando entrou no "calçadão" da avenida cruzou-se com uma ciclista em alta velocidade. Desviou-se na última, provando ainda o vento da tangente. Ela era maluca, doida varrida, só podia. Matava-o se ele não se desviasse. Talvez falta de respeito assentasse melhor. E quem não respeita não merece respeito. Guilherme barafustou sem parar, em tom alto e ríspido. Ela nem sequer tinha abrandado e imaginem se ali estivesse uma criança... Ainda para mais, seguiu o seu caminho sem um "desculpe", sem um olhar de arrependimento sequer. À sua volta, todos os cidadãos exemplares contestavam tamanha falta de civismo. Uma vez manifestada toda a indignação, entrou no carro e ligou o rádio. Tocou um clássico que sempre o acompanhou, que sempre fez parte de si: "boys of summer" soava e o espírito acalmava. Aquela era a sua música de Verão, a sua música de praia. Ele não era surfista, não tinha cabelo encaracolado, bronze de invejar nem tampouco sabia equilibrar-se numa prancha. Mas gostava de ver o mar, de ficar a observar a revolta ou a passividade que apresentava. O mar é temperamental, como as pessoas, e ele apreciava isso. A ira foi aniquilada pela nostalgia da sua música de tal maneira que ele nem se apercebeu que tinha passado pela ciclista que quase o assassinou. Chegou a casa ao final da tarde, dirigiu-se ao frigorífico e tirou uma cerveja fresca, bem como a refeição previamente preparada para o jantar. Sentou-se e ligou a televisão. Davam as noticias de um mundo que teimava em girar longe dele, sem se aperceber da sua velocidade. Mudou de canal e deixou-se ficar a ver um filme, uma comédia romântica, daquelas que começam meio tremidas mas acabam sempre bem, que nos fazem ficar de coração cheio e de sorriso tolo no rosto. Guilherme sentiu-se só, em silêncio, distante da realidade em que vivia, talvez a observar-se por fora, percebendo a distância entre o seu corpo e a alma. Sentia-se a passar ao lado de uma vida que já não voltava, desejando o que já fora...
Pegou nas chaves e saiu para a Baixa. A música alta, o barulho das conversas cruzadas e o calor da loucura esperavam-no. Dirigiu-se ao primeiro bar que encontrara com música ao vivo. Entrou sem saber o que esperar, sentou-se  e apreciou a boa música que aquela voz dócil entoava. O cover dos Amor Electro estava perfeito, com aqueles versos estridentes "Só é dor se for vontade....só é fogo se queimar". Ficou colado à música, sentindo na pele cada palavra. Não pestanejou, não conversou, alheou-se de tudo o que o rodeava. Perdeu a noção do tempo e do espaço, a música chamava-o e ele não tinha como não a seguir. A voz era fantástica e a cantora tinha um rosto bonito, era impossível não reparar. Ela Cantava aqueles versos em forma de flechas. Cantava-lhe a vida e ele ficava ali, imóvel, a assistir.


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