terça-feira, 8 de julho de 2014

Ao som do coração

Capítulo 2

Ela centrou o olhar nele. Não por ser extremamente bonito, apenas por o ser minimamente e por saber de cor todos os versos que cantava. As músicas que escolheu levavam a sua voz e alma, traziam cada bocadinho da sua vida e, inexplicavelmente, ele sabia-os de cor, cantava, entoava, interpretava e sentia-os. Não sabia explicar o que via nele, mas era como se um espelho reflectisse o que cuspia do coração. Decidiu ignorá-lo, devia ser fácil, afinal de contas era só mais um entre tantos outros que ali estavam a ouvi-la. Fechou os olhos para cantar "Use Somebody". Quando os abriu, lá estava ele, de bebida na mão, olhar seguro e letra na ponta da língua. Ele era como ela, um apaixonado pela música, pelas palavras, pelos sentimentos, pelos pequenos e esquecidos prazeres da vida. O relógio marcava 3.30 horas da madrugada, ele preparava-se para pagar ao balcão e ela acabara de cantar. Na tentativa de aproximar o contacto, até então meramente visual, decidiu ir buscar uma garrafa de água. Parou ao seu lado, como quem não o vira. Ele olhou-a como quem lhe quer falar. Ela sorriu e virou costas. Agora, ele que aproveitasse o momento que acabou de criar. Ele olhou-a, de sorriso parvo no rosto e nada lhe disse. Ali permaneceu, estático - Merda! - pronunciava em voz interior, como quem sabe que a vida é feita de momentos e momentos são oportunidades que nos surgem. Deixou-a ir quando tudo o que queria era fazê-la ficar. Ela percebeu que ele não avançava. Talvez por não estar interessado, talvez fosse comprometido. Ele era charmoso, disso não havia dúvidas, não era um Deus grego mas não precisava de o parecer para ser. Melhor dizendo, era de tal maneira sereno e sorridente que lhe demonstrava tranquilidade, segurança e confiança. Tudo o que precisava. Um galã clandestino, ou talvez não. Provavelmente uma outra mulher já o descobriu... O melhor era não ligar muito a isso, homens são homens, existem muitos, mas poucos são os que valem apena. Ainda agora acabou de o ver e já o julgava conhecer, já começava a achá-lo um príncipe encantado. Vai daí e ele era uma besta, como tantos outros. Um lobo em pele de cordeiro, como o costume. O melhor era ir embora e foi isso que fez. Os dois saíram sem se chegarem a falar. Tão perto e tão longe, e amanhã é sempre tarde demais.

 Seguiram-se mais 3 sábados seguidos de música, olhares em segredo e desassossegados. Num deles, ele chegou ao balcão e pediu um Gin. Ela queria apenas a sua garrafa de água. Nova oportunidade e ela estava decidida a tirar algo mais. Queria conhecê-lo, saber o seu nome ou simplesmente ouvir a sua voz. A dela ele já conhecia.



Capítulo 3

 - Olá, tudo bem? - abordou-o pouco antes de se mostrar desinteressada. Truques femininos que os homens teimam não compreender. Ele olhou-a como quem duvida ser o receptor de tais palavras.
- Ah, olá! - falou por falar, educadamente, sem saber ao certo o que dizer, sem saber o que deveria ser dito.
Ela sorriu e virou-lhe o rosto enquanto trincava a palha da sua bebida. Cabia-lhe "mexer-se", fazer com que se conheçam de vez. A medo, ele tocou-lhe no braço:
- Desculpa, queria dizer-te que cantas muito bem, apesar de me fazeres tão mal... - achou-se prontamente o maior dos idiotas, um parvo que não sabe o que diz, que afasta por não saber aproximar. Mas ela sorriu genuinamente. Ele pensava estar perdido com a má abordagem, logo perante uma mulher confiante, desejada e sedutora. Na realidade, ela achara a abordagem inexperiente mas engraçada e não tardou a responder:
- Obrigada - rasgando a palavra simpática com um sorriso emotivo - Espero que gostes, a música toca na alma, lava-a e mostra-nos quão imunda ela é.
Ele ficou a interiorizar tais palavras. Curtas mas profundas. Nada mais havia a dizer, era apenas ouvido, todo ouvido. Respondeu quando se sentiu preparado:
- Tens razão. Não saberia dizer melhor.

A conversa ficou por ali. Ele foi embora orgulhoso pelo passo dado, satisfeito por não ter vacilado e por ter chegado até ela. Não lhe perguntou o nome mas conseguiu ter a sua atenção. Ela permaneceu igual a si mesma, detentora da superioridade feminina que o homem reconhece.
De certeza que se voltariam a encontrar. Tudo parecia simples agora, quebrado o gelo que o olhar não transpunha. Quinta-feira era a próxima noite de música no bar e a probabilidade daqueles dois se voltarem a cruzar tinha acabado de aumentar.

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