terça-feira, 29 de julho de 2014

Eras tudo

O calendário marcava o dia 12 de Fevereiro e fazia 1 ano desde que ele se foi. Os lençóis quentes aqueciam-lhe a alma e os pés estavam gelados demais para caminhar ao desbarato. Ela não temia a morte, apenas ter de enfrentar cada novo dia. Tudo ficou sem cor desde que ele partiu. Fechou os olhos e imaginou-o ali, ao seu lado, onde deveria estar se a vida fosse justa e não pregasse rasteiras inesperadas. Ela nasceu para ser dele e ele sabia-o bem. Passou 4 anos a dar-lhe os motivos certos para a eternidade e não percebia o porquê de a vida lhe dar uma rasteira tão cruel capaz de lhe tirar todas as certezas. Agora viver é não ter motivo, não sentir, não gostar, não aproveitar e não desejar. Cada dia é mais um dia e o somatório de dias agoniza ainda mais aquela insuportável dor. Ela amava-o como sempre o amou, cada gesto, cada olhar, cada palavra. Abraçava a almofada como quem o abraça e cheirava-a como quem inala a última gota do seu perfume. De olhos fechados sentia a suavidade da sua pele. O dia fazia sentido, tudo fazia sentido quando ele vinha à lembrança. Quase jurava que o tempo parava e o coração adormecia a dor. 
Era meio dia e não queria sair da cama. Enfrentar o mundo era violento demais, logo agora que ele já não estava mais ali. Deixou-se ficar no sítio onde sempre estiveram mais próximos: a cama. Ali sempre foram um só, os corpos uniam-se e as almas tocavam-se. Naquele sítio gemia de prazer e ele sugava-lhe todo o desejo. Sempre se sentiu bem ali, sempre foram perfeitos os dois. Permaneceu de olhos fechados e sonhou com ele, dormiu mais umas horas, entre desejos e suspiros, entre o sonho e a realidade. Ele era o seu sonho e tudo o que ela queria. A realidade era a merda da vida.
O relógio marcava 15 horas quando o telemóvel tocou. Era a sua mãe determinada em encontrar justificação para a sua ausência prolongada. Há muito que a casa de sempre ficou para trás. Fazia cerca de 5 anos desde que tinha deixado a sua residência familiar para construir e decorar a sua própria casa, mais modesta, pequena e moderna. Lembra-se como se fosse hoje do dia em que decidiu sair, dos medos que enfrentava e das dúvidas que os seus pais colocavam. Não a achavam suficientemente capaz de arcar com o desafio, mas era uma mulher, tinha 20 anos e todos os motivos para querer ser livre. Conheceu-o um ano depois, aos 21, quando um amigo apresentou-os no bar. A química sentiu-se e ficaram a falar até mais não, sendo praticamente arrastados para permitirem o fecho do estabelecimento. Ele falava-lhe com toda a força interior que um homem pode ter, ela ouvia-o com a atenção de um coração. O coração apoderou-se dela logo ali, naquela noite, e nunca mais a deixou pronunciar-se. Ele falou-lhe para o peito, contando-lhe o que ela não percebia, falando-lhe um dialecto que ela não sabia traduzir. Falava-lhe de amor, de dor, da mágoa, do querer e não ter, do ser e não ser. Ela olhava-o e acenava com a cabeça. Não percebia nem metade, mas era ele... Ele tinha 29 anos, era escritor e tinha-se perdido numa história da qual não sabia escrever. Tinha amado mais do que devia, tinha caído na encruzilhada da vida e não conseguia soltar-se da dor. Falava com tanto sofrimento que ela jurava ser capaz de senti-lo. Disse-lhe que amou dos pés à cabeça, o seu maior erro. - Um homem deve apenas amar da cintura para baixo - Disse-lhe. - Quando se ama uma mulher dos pés à cabeça, está-se a construir a própria sepultura. A mulher não pode sentir que tem o homem na mão, nunca! Se ela se achar dona do destino, do dela e do dele, o homem estará morto e nada mais lhe resta. O peito de um homem nunca se entrega, é tudo o que lhe resta...
Todas as vezes que se lembrava de como o conheceu, lembrava-se destas palavras. Ainda a faziam rir, tanto tempo depois. As filosofias baratas de quem está numa sexta-feira à noite num bar, bebendo memórias e partilhando lamentos. As palavras sofredoras de um escritor mergulhado em paixão. Logo ele, habituado a romances assolapados, a intrigas amorosas e a confusões sentimentais. Como ele disse, uma coisa é sentir com a caneta, outra é sentir com o coração. Ele era misterioso, vivido, trazia a dor de outros amores, a experiência de outros peitos e o gosto de outros lábios. Ele tinha sido provado por outras mulheres e ela começou ali a sentir-se desejosa para o ter. Logo ela, um ser alheado de afectos, louca pela sua carreira e sem espaço para planos bilaterais. Um dia prometeu não entregar-se ao desbarato, hoje luta diariamente pela sua libertação.
Estava deitada na sua cama, o seu porto de abrigo, perguntando o porquê de tanta volta, de tanto amor. Simplesmente o porquê dele. Recordava o seu jeito, a sua voz, o seu toque e a resposta era óbvia. Era ele... era tudo.

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