sábado, 4 de outubro de 2014

A dor de viver

Liliana saiu mais cedo da loja, naquela tarde. Adorava roupa, vestidos, conjugações arrojadas e moda, mas a experiência de dona de casa mostrava-lhe que havia um lado negro por trás de todos os sonhos: lavar, estender e passar a ferro eram tarefas árduas das quais não podia escapar. Talvez um dia, mais tarde, quando tivesse vida estável, pudesse ter uma empregada. Mas não perdia muito tempo a pensar nisso. Era sexta-feira e o seu namorado de longa data tinha-lhe prometido jantar fora. Em contrapartida, ela levaria a roupa dos dois para lavar, como costume. E como ela gostava de ver as máquinas lavarem e torcerem as suas roupas. O mesmo esforço, o mesmo cheiro, a mesma frescura. Eles eram perfeitos e foram feitos para ficar juntos, duas peças do mesmo cesto. 
Uma vez chegada a casa, preparou-se para ir buscar a roupa suja:
- "Estranho, o cesto tem menos volume. Falta roupa!" - exclamou admirada pela situação. Ela saiu de manhã de casa, depois de Miguel - o seu namorado - e a esta hora ele estará preso ao seu escritório, rodando a sua cadeira e fazendo contas aos clientes, na sua seguradora. Já lhe conhecia a rotina de tantos anos. 
E foi naquela sensação estranha e tão feminina que  Liliana avançou pelo corredor, até ao quarto. Lá dentro, Miguel batia o mais baixo possível com as portas do roupeiro, ensacava roupa e enchia atabalhoadamente as suas malas. Duas malas e tanta pressa não eram sinónimos de coisa boa, muito menos uma tentativa frustrada de silenciar a culpa de tais actos. Ela pensou confrontá-lo ali, naquele momento. Depois, percebendo que passava despercebida, resolveu pegar nas chaves do carro e sair. Esperava-o lá em baixo, como um mero acaso à porta de casa. Talvez ele lhe dissesse que tinha de ir em viagem de negócios, que tinha de ir a casa ver a mãe que estava doente ou que os amigos o convidaram para uma noite de diversão, à qual já estivesse comprometido. Depois, ligaria e confirmava a história. No dia seguinte, voltava e estava ali, naquela casa, apaixonado como sempre esteve. "Os filmes que uma mulher faz", pensava Lili, tentando relaxar. Mas, aquela dor era estranha e doía tanto no peito... Desceu e esperou no carro. Pouco depois ele também desceu - sem gravata e dois botões da camisa desapertados - com uma mala cheia em cada mão e um constante abanar de cabeça. Ora esquerda, ora direita. Temia ver alguém, temia ser visto. Percebendo-o - afinal de contas namoravam há 7 anos, desde os 20 - Lili inclinou-se para trás, no banco do seu carro e seguiu-o com um olhar raso ao tabelier. "O que estaria aquele sacana a planear?" Logo hoje que iriam jantar fora com os pais de ambos.... Logo este fim de semana, em que havia o churrasco em casa do Tio Carlos.... Ele chamou um táxi e entrou. Ela voltou a sentar-se e arrancou. Seguiu-o, até perceber que o aeroporto era o destino. Ele pagou, tirou o casaco, pegou nas malas e caminhou acelerado. Ela, confrontada com a surpresa, vendo o impossível virar realidade, puxou o travão de mão no meio da merenda e ali deixou ficar a sua viatura. "Que se lixe! Resolve isto primeiro, mulher! Não tens tempo a perder". Tirou os sapatos e correu atrás dele, para não o perder de vista. Nas escadas rolantes esperava-o uma mulher elegante, bem vestida, bem parecida. Uma mulher de espanto. Liliana gelou e sentiu o corpo arrefecer a um ritmo tal que pensou não aguentar. O choque térmico ia matá-la, ou seria Miguel com aquela atitude irreflectida e louca? E eis que eles se beijaram. As chaves do carro caíram, o coração caiu, a felicidade ruiu e a vida pareceu desmoronar-se naquele momento. Ele e aquela... O seu Miguel e outra. Aquilo deu-lhe náuseas, ficou doente, a morrer, prestes a perder o gosto pela vida. Queria falar mas falar para quê? Apenas chorou. De repente, enquanto se recompunha das lágrimas salgadas que vertia, gritou com toda a força do seu coração:
- Miguel? Miguel? O que se passa? - A pergunta foi tão profunda que todo o aeroporto ouviu a sua alma.
Ele olhou para trás e... também ele parou. "O que fazes aqui, Liliana? Merda...". Olhou-a com o ar mais penoso do mundo - a descartabilidade é muito mais do que uma palavra.
- Desculpa Liliana, desculpa... - e as escadas rolantes levavam-no para zona interdita, para acesso restrito, para longe dela.
Liliana gritou um "não" sofrido até perdê-lo de vista. Tiravam-lhe o ar dos pulmões, o chão dos pés e o coração do peito. Como é possível viver assim, depois de tudo isto? Chorou até perceber que só podia virar costas e entrar no carro. E foi o que fez. Entrou, sentou-se e chorou. Ligou o rádio e ouviu "To give" dos silence 4. Voltou a chorar a cada palavra. Ouvir música não ajudava, mas sabia bem apertar a ferida... "Que vais fazer à tua vida? Merda para os homens! Uns traidores, uns canalhas! Merda de mundo em que já não se pode confiar em ninguém!".  Limpou as lágrimas apressadas e preparou-se para conduzir. Nisto, viu o bilhete amarelo preso à escova do veículo. "Uma multa! Merda! Só faltava mais isto!" Saiu do carro e tirou o papel. Pontapeou o pára choques e voltou a entrar. Mordeu o lábio de toda a dor que sentiu no pé direito. Mas que se lixe a dor física, ela morria a cada bocadinho daquele dia. 
Uma vez chegada a casa, dirigiu-se a tudo o que era dele e a lembrasse que o canalha alguma vez existiu. Pontapeou, rasgou, cortou, partiu e amassou. Queria matá-lo, se pudesse. Queria esventrá-lo, cosê-lo, voltar a esventrá-lo e deixá-lo ali, ao abandono, agoniado na sua dor. Depois pensava nele - o Miguel, o seu príncipe encantado, o homem que lhe mostrou que a vida era perfeita - e apenas lhe pedia para voltar, para ser o que era e nada mais mudava, nada mais importava.  Naquele momento de fraqueza, Liliana levanta a blusa e passa a mão pela cicatriz que tinha no lado direito da sua barriga. Um dia, um anormal que ela julgou um príncipe encantado, tentou matá-la, esfaqueando-a, tirando-lhe qualquer confiança na vida. Ficou mergulhada em sangue e vergonha. Mais tarde, um rapaz sereno, responsável e encantador, prometeu-lhe nunca a ferir, nunca a marcar. Em troca, tudo o que ela tinha de dar era confiança e acreditar que ele a faria feliz, para sempre! "Idiota, anormal! Um bom Filho da Puta... mais um!". Chorou, soluçou, pensou arrancar cabelos, cortar pulsos e talvez meter fim à vida. Depois ponderou vê-lo uma última vez. Nisto, passou a mão por baixo da camisola, até ao coração. Sentiu a ferida que hoje ele lhe fez, a maior facada que alguma vez levou. Decidiu não ser fraca, afinal de contas, para fraco já bastava ele - e os dois não poderiam acabar assim. Ela era forte e lutadora. merecedora de um lugar no mundo cão em que vivemos. "Luta miúda, estás na lama outra vez, mas agora não precisas de ninguém para te ergueres. Chega de merda! Cara lavada!". Queimou-lhe as fotos e telefonou aos pais. Foi menina protegida durante o fim de semana e a dor de viver foi transformada em determinação. "Uma mulher não desiste, conquista". E a coragem nascia a cada novo dia, escondendo a desilusão.

2 comentários:

  1. Tiago, termino de ler as tuas palavras com lágrimas nos olhos.
    Fiquei, de longe, observando as cenas. Senti um aperto no peito enquanto Miguel sumia do olhar de Liliana. Ouvi os gritos sofridos e pude sentir a dor que sangrava no coração.
    Triste. Suas palavras rasgaram a minha alma.
    Como vc me envolve no seu escrever.
    Gosto demais!!!

    Obrigada pelas sensações!!!

    Abraços meus!!^^

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    1. Muito obrigado por tamanhas palavras, Suzana.
      É um prazer e orgulho saber que as sente do mesmo jeito que as escrevo.
      Continue acompanhando esta pequena história de vida.

      Grato pela visita, leitura e comentário.

      Beijo.

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