domingo, 12 de outubro de 2014

Como dói viver

O tempo ajudou-a a crescer, mas sempre tinha ficado aquela espinha na garganta... Foi numa comum e preguiçosa manhã de segunda-feira que Liliana se deparou com Miguel, no mesmo espaço, no mesmo campo de visão, tanto tempo depois. E tanto tinha ficado por dizer...

Ela encarou-o sem falar. Naquele preciso momento a mesa virou pequena demais para tanto rancor. Ele espetou as costas no apoio da cadeira, não podia recuar mais. Ela meteu as duas palmas das mãos na mesa - em jeito firme. O seu olhar era o mesmo de sempre, fulminante. 
- Porque me fizeste isto, Miguel? Porque desististe de mim depois de tanto esforço para me ganhares? Porque me levantaste da lama para, de seguida, me esfregares a cara na mesma poça de lixo em que rastejava? - as suas pupilas dilataram e o esforço para não verter qualquer lágrima era imenso. O discurso metia pena mas o seu rosto não. Miguel sentiu medo daquele enfrentar. Afinal, ele estava habituado a largar e desaparecer.
- Calma, Liliana....
- Calma o caraças, Miguel! Cresce, vira homenzinho! Assume a merda que fazes e não te escondas.
- Tens razão, desculpa - dizia Miguel, ligeiramente incomodado. Talvez pedisse perdão apenas para se safar da situação de aperto, para acabar com o embaraço que Liliana criava. Um Café inteiro focava-se naqueles dois e ele era cada vez mais o idiota.
- Não me peças desculpa, não preciso de te perdoar para seguires em frente. Apenas eu precisava de algo para seguir em frente. E esse algo já tive, os teus ouvidos, ainda que moucos. Por muito que queiras, estas palavras não te serão indiferentes. Agora, logo à noite ou noutro dia qualquer, quando a tua vida estiver na merda e sem sentido, lembrar-te-às de todo o sofrimento que deste a quem não mereceu. Logo alguém que sempre deu tudo por ti...
- Sim....
- Sim nada, meu anormal. Não te metas mais comigo e vê a merda que fazes. Um idiota será sempre um idiota.... - e de seguida derramou o café na camisa de Miguel - a camisa que durante tanto tempo ela lavou e passou. Nisto, a cadeira arrastou-se e provocou um barulho irritante e incomodativo.
Quebrado o silêncio, Liliana fez música com os seus saltos altos. Era a sua saída triunfal e, por breves momentos, sentiu-se dona do mundo, do destino, do homem estúpido e anormal que amou e do seu coração. Aquela era a sua pequena vitória, aquele o triste palco da sua vida. Miguel permaneceu imóvel, vendo-a sair pela janela do Café. "Merda, como fui eu perder-te, Liliana? És fogo..."
Liliana virou a esquina e sentou-se no chão que todos os dias pisava. Tirou os sapatos altos e chorou, chorou até perceber que um novo dia traria uma nova vida. "Merda, como dói viver!"

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